Ainda morro disso…

Hombre, Territory e seus companheiros armam uma rebelião no hospício, enquanto Pepe é mantido refém pelo diretor, na sala da Administração. Anarquia realizada por anões, maus tratos a animais antes dessa época de histeria em defesa deles, um caminhão andando em círculos sem ninguém ao volante (estilo Stroszek), um camelo devoto. Tudo isso e muito mais nessa pérola impagável dos anos 70 chamada Também os anões começaram pequenos (doravante TOACP), de Werner Herzog. O Allmovie certeiramente alerta: mesmo aqueles que viram Freaks não estarão completamente preparados para TOACP.

Alguns anos atrás, a Sala P.F. Gastal exibiu esse filme, em um ciclo Herzog. Na ocasião, eu vi Cobra Verde, Stroszek, Coração de cristal, Nosferatu e O enigma de Kaspar Hauser, se não me engano. Não lembro porque não compareci no dia do TOACP, talvez estivesse de saco cheio de ir até lá, não sei. O Tiago foi e disse que quase morreu novamente. Desde então anseio por preencher esse vazio.

Ontem o vazio foi preenchido, e agora a minha vida não vale mais nada. Uma lacuna maior do que a encontrada na atmosfera se abriu no meu espírito. Fui devastado.

Uma porca morta, seus porquinhos ainda mamam. Uma galinha sem pé sistematicamente bicada no rabo pelas outras. Azúcar foi morto. Querem enforcar Chicklets. Dois anões cegos que mal podem se defender. Territory, grande e destemido, o líder da revolução. Anãs velhas horrorosas. Hombre, um astro, risadinhas contagiantes, sempre de canto, boca suja, espertamente não se esforçou pra consumar o “casamento” com a anãzinha tipo Latininho. Gasolina nos vasos de flores e fogo. Apedrejamento e ameaças. Linhas de telefone cortadas. Pepe, amarrado a uma cadeira, não faz nada além de rir, tenta evitar, mas é incontrolável. Só sossega quando chove caco de vidro em cima. Herr Herzog, não tô mais me divertindo. E morre mais galinha. Um carro andando em círculos eternamente, Territory surfando em cima e sendo arrastado junto com um tapete. Anões, pernas curtas, arriscando suas vidas toureando o carro. Diversão total. Agressões a uma máquina de escrever, guerra de comida, pratos quebrados.

Anarquia generalizada. Hombre imponente em cima de uma moto, um clássico. E, por deus, uma procissão: na frente vem o anão segurando uma cruz; na cruz, um macaco.

O filme termina com o diretor do hospício escapando. E então temos mais duas seqüências antológicas: o diretorzinho desafia UMA ÁRVORE e Hombre ri até passar mal de um camelo que até então não existia.

Herzog – gênio da comédia.

2 Respostas para “Ainda morro disso…”

  1. [...] muito seu trabalho, mas seus filmes nada tem a ver com os do Jodorowsky, a busca é outra. Mas como Freaks não nos prepara para Também os anões começaram pequenos, de Herzog, El Topo e Santa Sangre não nos preparam para Holy Mountain. Por isso é interessante [...]

  2. [...] esse recente documentário da BBC com o Herzog. É sempre um prazer. O Korine aparece comentando Também os anões começaram pequenos ao lado do [...]

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