como abandonei o rock

Eu ouvia rock. Gostava. Nem preciso voltar às minhas origens adolescentes de ouvidor de música, mencionando o primeiro disco que comprei, as bandas que eu gostava, a influência da MTV; isso é o comum de todo mundo que tem entre 22 e 32 anos. Alguém da minha idade que não começou a ouvir música ouvindo rock é uma exceção inefável. Soou como uma defesa do rock, mas longe de mim defender o gênero mais pasteurizado, enlatado, fermentado, aromatizado e conservado com coisas tóxicas de todos. A gente tá começando a gostar de música, não sabemos porra nenhuma, nosso pais viveram nos anos 60, existe um produto que anuncia e vende mais que coca-cola, não temos escolha: rock.

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Então é, nada de citar o Use Your Illusion II.

Todas essas características do rock querem dizer que para mim foi uma enganação, um equívoco. Enganei a mim mesmo por anos a fio, que constrangedor. Gostava? Gostava muito. Só que depois que larguei o rock – ou melhor, depois que priorizei outros sons e então sim larguei (ou seja, não abandonei o rock e depois fui catar outra coisa pra ouvir) – a realidade do engano do qual eu falo veio à tona. O rock não dizia nada pra mim.

Me deixei levar pela corrente. Estava curtindo, por que questionar?

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Depois da adolescência, reneguei várias coisas que ouvia, mas não saí do rock, obviamente. Em dado momento, o da faculdade, virei indie. Sair, beber e ver showzinho de rock todo fim-de-semana, nem precisava combinar, era só chegar; allmusic e napster; allmusic e soulseek; allmusic e audiogalaxy; allmusic e soulseek de novo. 200 mp3. 500 mp3. 1000 mp3. 2000 mp3. Saddle creek records. Matador. Icq. Sebadoh, Sonic Youth. Cat power (showzinho num calor insuportável e 2/3 do público nem gostava. hoje adoram, além do vincent gallo e do tal de bonnie prince billy). O emo em 2001 – modinha já atrasada entre eu e meus amigos, que só ouvíamos weezer – muito antes dessa onda surgir. Boy sets fire, Get up kids, Sunny day real estate, Texas is the reason.

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Deftones, shoegaze. Referências exteriores à música. Cabecismo, teorias, zeitgeist. O rock era só a música de fundo. Mas ainda era. E o industrial (e relacionados) amadurecendo. Einstürzende Neubauten, Skinny Puppy, Laibach. O Ministry já era rei na época do weezer, agora então… E o black metal. Mayhem – De mysteriis dom sathanas. Porra, eu gosto disso. Não é só pela busca. Me grava aí, Pingão. Stockhausen? Xenakis? Nunca vi disso. TRIMASSA, ein. Também quero.

Enfim, paralelas ao rock que eu ouvia com meus amigos, eu tinha as minhas preferências. Aí, de uma hora pra outra, embora naturalmente, os amigos se distanciaram. Diversos fatores envolvidos, que não precisam ser mencionados. Falando assim, parece que foi grave eheh.

Isolado, minha individualidade fagocitou o que havia de gregário na minha personalidade. O que estava em desuso atrofiou. O rock foi enfraquecendo. Tinha um Queens of the stone age ali, um Deftones sobrevivendo acolá, acordados por reuniões esporádicas com os amigos. Até que acabou.

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Sozinho com o soulseek, me dediquei a baixar black metal. Uma fase negra em que eu ouvia Slayer e achava fraco. Darkthrone, Enthroned, Immortal. Quero pior. Anaal Nathrakh. Na primeira audição não deu muito certo. Depois já conseguia identificar música, melodia. Não tinha volta, era impossível ouvir rock ou outra coisa menos extrema; não me soava bem, fazer o quê…

Logo que me vi nessa situação, fiquei meio bizarro. Bah, estou em outro nível e a escada de volta se desintegrou. É até covardia mencionar o Queens of the stone age (então) novo que eu baixei, ouvi uma vez e deletei em uma semana. Escada acima.

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Não sei por quê, baixei os Fantômas todos. Senti um ranço indie no meio daquela ruideira toda e fui além, fui atrás do esquema de verdade: japoneses desgraçados. Noise japonês. Japanoise, pros íntimos. Cheguei no tal de Masami Akita, ou Merzbow. Só ouvindo pra saber. Eu ouvi e soube. 30 minutos de uma chiadeira horrível, tipo aquela que faz a tv quando sai do ar (ainda rola isso? na minha sim), com variações pra pior, umas 2 vezes por disco (ou fita cassete), grosso modo. E Yamasaki Maso, ou Masonna. 30 faixas de no máximo 1 minuto de chiadeira horrível acrescida de berros de sangrar a garganta. E eu soube. Eu me senti bem. Disse para mim mesmo: eu encontrei…

Noise, free jazz, avant-garde jazz, avant-garde, experimental… Rohc? Nem sei mais como se escreve. Naked City, John Zorn, Whitehouse, Boredoms, Sun Ra, Ornette Coleman, Ground Zero, Ryoji Ikeda. Não era música, tava valendo. Post-rohc? Não trabalhamos.

Isso não tem fim… minhas costas dóem.

Até aí o allmusic.com foi meu companheiro fiel, como era na época roqueira. Surge, porém – não lembro bem como, mas tem relação com o last.fm – o tal de post-industrial, ou industrial apocalíptico, ou darkfolk, ou neofolk, com amigos tipo martial industrial, military pop, neoclassical… O que é gênero, o que é espécie, o que é rótulo babaca, o que não é, nada disso importa, só importa que surgiu e foi bizarro. (Surgiu pra mim, né, precisa dizer?).

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Mas eu não quero falar desse gênero, já tô fraquejando na vontade de continuar escrevendo sobre isso. Basta dizer que é o que tenho escutado ultimamente. Wikipedia é serventia da casa. E é esse o som que marca a minha despedida do allmusic.com. Discogs.com, avante!

Um exemplinho, só pra deixar claro: “Allerseelen”.

Allmusic.com: goth rock(!). Discografia: tem um disco ali, sem as faixas. Mais nenhuma informação.

Discogs.com:

Real Name: Gerhard Petak
Profile: The Austrian group Allerseelen have been active and innovative in the industrial and apocalyptic folk genre for many years. Their CDs and 7″ editions have been issued on Aorta and their double-LP editions on Ahnstern. Allerseelen is a unique combination of industrial and folkloristic elements, and “Industrial Folklore” might be an appropriate expression to embrace these seemingly contradictory qualities. Allerseelen have performed in many European countries as well as in North America and Russia. On stage, the songs quite often manifest very differently from the studio versions. The dynamic stage presence of one or two martial drummers, the psychoactive bass player, and the front man all contribute toward a unique mood of “Apocalyptic Krautfolk” for these live performances.
URLs: http://www.geocities.com/ahnstern
http://www.myspace.com/allerseelen
Members: Gerhard Petak

Isso e mais 30 itens da discografia, além das coletâneas das quais o cara participou.

Covardia.

É isso aí. Era previsível essa evolução, afinal de contas eu nunca gostei dos cânones do rock mesmo. Os tais de Bíteus…

Felipeta music no youtube:

Darkthrone: http://www.youtube.com/watch?v=SBwu83RR6ZU

Masonna: http://www.youtube.com/watch?v=EupyhVjFVHs

Laibach: http://www.youtube.com/watch?v=YvRhOpqZO7I

Kannonau: http://www.youtube.com/watch?v=EupyhVjFVHs

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2 Comentários em “como abandonei o rock”


  1. […] minha época de transição do rock pro black metal, nas reuniões na casa do Pinga, ouvíamos Laibach, tínhamos a estética nazista (não só ela, […]


  2. algumas bandas de neofolk são nazi, por exemplo , eu curtia Allerseelen, mas bah um cara que me vê como inferior né? as vezes é bom ver a posição politica da banda.
    mas uma dica, Igorrr, é fascinante!


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