Requinte e sofisticação

Era a promessa para a noite de ontem, feita pelo anfitrião e sua esposa. Eu, um vagabundo sem diploma que tenta ser artista, sendo convidado para participar de uma soirée no subúrbio, entre membros da elite acadêmica, queijos e vinhos. Tudo em nome da amizade antiga.

Tomei um banho, aparei a barba, só não abri mão do cabelo excêntrico, tentativa de espiritualização, e caminhei no frio até a parada de ônibus. Era fim de tarde, domésticas e outros subempregados esperavam seus respectivos ônibus de volta para suas casas na periferia da capital. Quarenta minutos de viagem, do centro à zona norte da cidade; quarenta minutos recolhendo domésticas, vendedoras de lojas de terceira classe e outros matutos pacatos.

Desci no fim da linha do ônibus, junto com o bando. A avenida Assis Brasil reflete a gente que não deu certo, aqueles que não tiveram acesso a um mínimo de cultura. Parece uma versão trash do centro da cidade, um outro paradigma de pobreza, feiúra e desesperança. Daquele ponto, as pessoas – se é que podemos chamá-las assim – embarcam em outros ônibus, que as levam para ainda mais longe. Eu só posso caminhar, pois não há transporte público que leve à parte nobre da ZN. O ar frio castiga. A gente feia castiga. O planejamento arquitetônico inexistente castiga. Caminho até avistar um shopping center, sinal de que estou perto. Enveredo por uma rua onde se enfileiram prédios gradeados. Tenho ainda uma praça para atravessar antes de chegar na casa do meu amigo.

Parado na frente do portão, observo lá dentro, através da janela, meu amigo sentado em uma poltrona, lendo o jornal do dia, iluminado pela luz amarelada do abajur. Fico ali alguns segundos, até Tiago levantar os olhos e me enxergar. Elegantemente vestido, com um terço de camadas de roupa a menos que eu, ele deixa o jornal no braço da poltrona, sorrindo, e vem abrir o portão para mim.

Eu entro e a casa é quente, diferente do meu apartamento gelado, onde eu passo o dia encasacado e com frio. Na mesa de centro e nas mãos da Cássia, livros em francês.

Nesse momento a licença poética termina. O jornal era a Zero Hora, os livros em francês, dicionários. A casa é realmente muito mais quente que a minha e o Tiago estava mais bem vestido que eu; a Assis Brasil é um lixo, como o Centro também é. E tem ônibus que pára na frente da casa do Tiago, mas é mais fácil para mim fazer o caminho que eu fiz. E não é tão horrível assim.

O requinte e a sofisticação ficaram por conta da elaborada TÁBUA DE FRIOS, é claro. Sempre uma atração. Não citarei o conteúdo da tábua de frios porque não quero que nenhum sofisticado caia aqui e ache graça da ingenuidade da coisa, se existiu. Churrascos, jantares e afins, lá na casa do Tiago, são simplesmente uma desculpa pra reunir pessoas, são meios e não fins, portanto fodam-se os chatos. Em todo o caso, não desvalorizarei a pesquisa que o casal fez para chegar ao Cabernet Sauvignon chileno que apresentaram.

Cheguei lá e eles estavam vendo SHORT CUTS – Cenas da vida, do falecido Robert Altman, de 93. Nunca vi esse filme inteiro, mas é massa. Uma boa quantidade de gente acha esse filme uma merda, mas acontece que em 93, pelo que eu me lembre, (embora não faça tanto tempo) não era tão comum (nem tão cool) meter 20 personagens num filme; pra “piorar”, as estórias não se conectam. Tem um milhão de atores que brilharam mais nos anos 90 (Madeleine Stowe, Jennifer Jason Leigh, Matthew Modine, Andie MacDowell, além da Julianne Moore antes da fama, fazendo um nu frontal. E tem o Downey, que nunca parou de brilhar, se é que vocês me entendem. Destaque para os trajes dele, no filme: bermuda social com cinto e camiseta velha para dentro da bermuda.

Quando Short Cuts estava se encaminhando pro final, chegou mais um pessoal, pra acrescentar comentários cinematográficos ao papo. Com o final do filme, o assunto mudou para novelas. Sofisticação pra caralho. Serviu para lembrar da recente Senhora do destino, que marcou, graças à atuação da Renata Sorrah, no papel da “Naza Tedesco”, e eu tinha esquecido de citar lá atrás.

Ah sim, depois do Short Cuts passou Rain Man, mas não demos muita atenção. O assunto novela veio à baila porque uma facção queria ver a novela das 8, que começou bem na hora do JANTAR (macarrão com molho de galinha ou molho de carne do colono).

Na hora da sobremesa, chegaram os derradeiros convidados, que puderam saborear a mousse de chocolate feita com uma lata de creme de leite ok e uma lata de creme de leite vencido havia dois meses. Apesar da pressão psicológica gerada por essa informação, não se manifestou nenhum efeito até o momento.

Após a comilança, um núcleo foi discutir QUESTÕES (mestrandos e doutorandos em ação), alguns tocaram piano por instantes (sofisticou), enquanto outros, eu incluso, foram assistir ao já começado TOURO INDOMÁVEL. Não lembrávamos direito o que o filme tinha ganhado no Oscar (não que déssemos importância): apenas melhor ator*, pro De Niro, é evidente. O Scorsese só foi ganhar Oscar de direção e filme agora, com Os Infiltrados.. [tapa na testa] essa tava fácil.

No final do filme, o Jake La Motta já tá decadente, gordão, mendigando carinho do irmão (Joe Pesci), contando piada em boteco, apresentando cantoras trash. O grande momento vem quando ele está no camarim do boteco (foto abaixo), se preparando pra entrar em cena.

ragingbullfinal.jpg

Ele cita o personagem do Marlon Brando em Sindicato dos ladrões, que eu nunca vi. O personagem era um ex-boxeador e tal. O La Motta repete uma fala clássica dele, na frente do espelho, e é sensacional; dá pra imaginar o Brando falando, como deve ser igualmente sensacional ele falando aquilo, porque ele também era foda. Aí o gordão fecha a camisa, ajeita a gravata borboleta, levanta e sai boxeando. I’m the boss. I’m the boss. I’m the boss. I’m the boss… Muito afudê.

E em seguida, começou O bebê de Rosemary, obra-prima que Satan e Roman Polanski perpetraram em 1968. Um filme de satanismo, paranóia e angústia; o diabo aparece, é toscão, mas a gente não fica pensando “Bah, que ridículo, que bobagem esse filme.” Cenas de alucinação sem a menor explicação (pecado em Hollywood) e “sem trilha sonora”, só tic-tac do relógio, estilo Repulsa, outra obra-prima arrepiante. Mia Farrow feia-bonita comendo carne crua e ditando moda pras garotinhas de hoje. Hail, Satan.

Antes do filme terminar, viemos embora.

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*ganhou prêmio de edição e/ou sei lá mais o quê, mas não importa, porque a nossa dúvida era só sobre “melhor filme”. Citar o De Niro era praticamente obrigação.

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5 Comentários em “Requinte e sofisticação”

  1. Dora Says:

    Eu gosto do jeito que você escreve. Mesmo. Escreva mesmo e escreva sempre.

  2. felipeta Says:

    tri, valeu, Dora 😀

  3. tiago Says:

    bah… só vi agora essa belíssima descrição dos acontecimentos. de fato, bela soirée regada a vinho e películas de bom nível. repetir-se-á, futuramente, em uma versão chinelona de verão.

  4. cássia Says:

    belíssima descrição do evento. e a NAZA merece um post só pra ela, relembrando os melhores momentos.

  5. felipeta Says:

    é verdade. SENHORA DO DESTINO foi realmente muito boa e merece um post. final memorável.


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