Noah Baumbach

Eu só fui ouvir falar em Wes Anderson depois que foi lançado Os excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001). E naquela época, por causa dessa obra, ele era simplesmente o diretor queridinho do momento dos indies e eu, embora pudesse me encaixar de alguma forma no conceito, rejeitava a reverência ao cara e nem quis ver os casaquinhos Adidas vermelhos. Só uns três ou quatro anos atrás deixei meu ranço de lado e assisti ao supracitado filme. Gostei bem. A vida marinha com Steve Zissou (The life aquatic with Steve Zissou, 2004) eu vi com certa expectativa, graças à boa impressão causada pelos Tenenbaums, mas principalmente pela presença (e pelo retorno às telas) do Noah Baumbach como co-roteirista. Talvez o então iminente lançamento em DVD do Zissou tenha sido a causa da retomada (no caso, da tomada) dos Tenenbaums, não sei, a ordem dos fatos está confusa. O que interessa é o Noah Baumbach.

Provavelmente o ano era 1996. Na porta da locadora, um pôster (hoje chamam de cartaz, mas pra mim cartaz é outra coisa): Tempo de decisão, com Eric Stoltz. Os anos de 95 e 96 foram de febre tarantinesca entre meus amigos e eu. O Pulp Fiction de 1994 foi um marco. Tudo era interessante, do passado do Tarantino como atendente de locadora aos filmes estrelados por atores de seus filmes; dos filmes que ele apenas tinha escrito aos pós-Pulp Fiction de diretores desconhecidos, com uma evidente influência tarantiniana; de Robert Rodriguez a Elmore Leonard.

De volta ao Eric Stoltz. Além de interpretar um comerciante de drogas em Pulp Fiction, ele foi protagonista de Parceiros do crime (Killing Zoe,  1994), que foi escrito e dirigido pelo Roger Avary, co-roteirista do Pulp Fiction. Roger Avary escreveu a “teoria do Top Gun” (que acabou conhecida como do Tarantino, pela fama dele, decerto) que é apresentada no filme de 94 Vem dormir comigo (Sleep with me), em que Eric Stoltz atua. Conclusão: peguei o filme.

Tempo de decisão (Kicking and screaming, 1995). Nada a ver com Tarantino, a presença dele aqui está encerrada.  Não sou burro, li a sinopse e sabia que não estaria pegando enganado um filme “tipo Tarantino”, ok? O filme trata de um grupo de amigos que se formaram na faculdade e não sabem o que farão da vida, aí continuam na mesma, prolongando a permanência no campus. O personagem do Eric Stoltz, embora secundário (embora fosse a atração principal no pôster), está na universidade há 10 anos. Participação da diva do cinema indie Parker Posey e da Olivia D’Abo – popularmente conhecida como a irmã do Kevin Arnold e minoritariamente conhecida como a princesa do Conan, o destruidor. Eu e meus amigos não estávamos nos formando na faculdade, mas no colégio. Mas não nos identificamos com a crise dos personagens. Como um bom grupo de mangolões que formávamos, vivíamos de piada interna, falando e inventando bobagens e mantendo uma certa uniformidade no modo de falar e nas coisas que falávamos. “Vocês todos falam igual.” Frase dita no filme e que se aplicava a nós. O filme caiu como uma luva e logo passou a fazer parte das nossas vidas, depois que, entusiasmadíssimo, apresentei para os caras. Noah Baumbach – chegamos nele – escreveu e dirigiu Tempo de decisão. Automaticamente tornou-se um ídolo. Veja o trailer:

E veja 10 minutos de cenas aleatórias, para sacar qualé:

Alternávamos na nossa existência repetidas sessões de Tempo de decisão, Tarantino, Robert Rodriguez e outras coisas na casa do Valmor, que sempre tinha rango e gravações do Saturday Night Live antigo. Até que um dia ele anuncia que viu no Telecine um filme com os mesmos atores de Kicking and screaming, do mesmo Noah Baumbach. Imediatamente ele gravou e me emprestou. Chamava-se Highball (1997). Comédia gravada em SEIS DIAS, mostra um casal e seus amigos ao longo de um ano, em festas no apartamento do casal. Estão no filme: Eric Stoltz, o metacineasta Peter Bogdanovich, Ally Sheedy (a goth do Clube dos cinco) interpretando a si própria, Rae Dawn Chong interpretando a si própria, Noah Baumbach, Dean Wareham (das bandas indie Galaxie 500 e Luna, amigo de Baumbach e responsável pela trilha desse e dos filmes posteriores do cara), Dean Cameron (o Chainsaw de Curso de férias), entre outros, tais como Carlos Jacott, que co-roteiriza esse e atua também em Tempo de decisão. Por desavenças com o estúdio, Baumbach renega essa obra-prima tosca que o Telecine nunca mais passou e que não encontro para baixar. Mas tem 8 minutos dela no YouTube. Infelizmente carece de muitas, senão de todas as cenas antológicas:

Tempos depois, já com Net e internet, com mais informações e conhecimentos agregados, soube da existência e pude ver Mr. Jealousy (1997), o terceiro Baumbach, agora protagonizado pelo Eric Stoltz. Vi nessa única vez, não lembro de nada. Sacanagem que a internet dá acesso a tudo quanto é informação, fica parecendo que eu copiei tudo que já escrevi no post, já que são “tantos” dados. Mas eu já sabia tudo isso. Não conto vantagem, mesmo porque é óbvio que eu sei muito pouco de muita coisa e que toda essas informações que passei nem são sensacionais; é só uma leve massageada na auto-estima. A internet veio pra ajudar, mas se o cara é ignorante total (ouso em não me considerar um desses), não tem internet que ajude.

Então de volta aos anos 2000. Não gostei muito d’A vida marinha…, gostaria de rever. Em 2005 Noah Baumbach voltou de verdade às telas, com A lula e a baleia, produzido pelo Wes Anderson.

O trailer (acima) mente sobre o filme e o piora. Não rola esse ritmo espertinho, não é uma comédia do cotidiano familiar. Enquanto os dois primeiros Baumbachs investiam na bobagem, A lula… adota a seriedade. Escritores divorciados compartilham a guarda e a preferência dos filhos. O que impera é o equívoco constante na escolha da maneira de se relacionar com os familiares. Há um desprezo ignorante pelos sentimentos dos outros. Os pais são uns idiotas; os filhos, afetivamente abandonados. A falta de noção que eles têm de como se comportar com os outros é meio inacreditável. O filme, embora pudesse, não é pesado, não tem aquele tom metafísico das relações interpessoais, das famílias disfuncionais. Acaba caindo para o cômico, sim, mas pelo sentido tragicômico que “cômico” tem. É bão, é Noah Baumbach maduro.

Margot e o casamento (Margot at the wedding, 2007) segue a mesma linha d’A lula e a baleia, mas é pior. Pior no comportamento dos personagens. Irritantes, merecem uns sacodes, tapas na cara. E é a causa desse post, já que vi a película recentemente.

Se no outro os familiares pareciam não saber qual era a maneira adequada de se relacionar, nesse eles parecem saber exatamente qual a maneira adequada. Só que fazem questão de ir para o outro lado. A regra é a seguinte: são meus familiares? Não apoiarei, é claro, e quando eu falar alguma coisa boa vai ser com o objetivo de ferrá-los. Nicole Kidman ridícula; filho que na primeira cena achei que fosse filha ridículo; Jennifer Jason Leigh (mulher do Noah Baumbach), para variar, doentinha da cabeça; Jack Black, um fracassado idiota. O negócio fica um pouco mais doentio, tipo filho dormindo de cuequinha com a mãe e tal, numa relação de aniquilação mútua. A mesma ausência de peso metafísico está presente aqui. E como em A lula…,  embora ainda não tenha dito, as relações doentias em família nesse filme não são aquela caricatura que o Wes Anderson apresenta. Não julgo, apenas aponto a diferença.

Além de Nicole Kidman subindo em uma árvore, o universo doente de Margot… traz o absurdo de um bigode não ser engraçado. O personagem do Jack Black deixa o biga com essa finalidade, mas ninguém acha que isso tem graça. Que horror.

Recomendado está.

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2 Comentários em “Noah Baumbach”

  1. julia Says:

    everybody felix, it’s felix’s birthday!
    everybody felix, he’s old in the best way!

    HOMEBREW!


  2. […] psicológica, enfim. Pessoas que poderiam ser reais. O @felipeta falou no blog dele (https://felipeta.wordpress.com/2009/03/07/noah-baumbach/) uma coisa muito verdadeira: “O filme, embora pudesse, não é pesado, não tem aquele tom […]


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