Carroceiros

Eu não tenho nada contra os carroceiros, esses coitados que vivem de recolher sucata e lixo nas ruas. Desde piá sempre tive muito apreço pelos que puxavam sua carroça no muque,  sem auxílio eqüino, mas não chegava nem chego a desgostar dos que tem carroça a cavalo. Não me importa NADA se o bicho é bem ou mal tratado, deixo claro. Melhor que carroceiro, só mendigo true, aqueles barbudos que apenas circulam, não falam, não importunam; às vezes apenas ficam atirados em algum lugar, ostentando o desprezo pela civilização que rejeitaram, em vez vez de pedirem, esmolarem, choramingarem ou coisa pior.

Comento a coluna do Nico Fagundes do dia 30 de maio, de título A favor das carroças. Para os brasileiros que lêem o blog: Nico Fagundes é um semideus e operário do Tradicionalismo gaudério. O texto dele vai muito bem, fala de como era importante, no passado, o transporte por carroça, sendo a única opção. Beleza, mas veja:

O carroceiro é sempre um homem pobre e trabalhador. Não há carroceiros envolvidos em roubos e assaltos. Eles vivem na periferia, de onde se deslocam sempre a serviço. Fazem carretos, transportam lixo, ajudam a limpar a cidade.

e

Meu pai foi carroceiro durante oito anos. Com um carroção colonial de quatro rodas e uma carroça campeira de duas rodas, o velho Euclides adquiria couros nas estâncias de Uruguaiana e depois entregava tudo nos curtumes da fronteira.

Tchê, como comparar um carroção colonial e a função de “motoboy” do carroceiro com o que se vê hoje nas ruas da capital? Carroceiro hoje é um pobre coitado que, em geral, que, a rigor, não faz serviço pra ninguém coisa nenhuma, ora. Não dá pra chamar o que os carroceiros de hoje fazem de emprego. O que essa gente faz está mais pra comensalismo do que pra outra coisa, sei lá. O lixo que eles recolhem é só o que o lixeiro não leva (ou o que eles catam antes de o lixeiro passar), reba da reba. E não é de favor para nós que eles o fazem, convenhamos, não é para limpar a cidade, é porque é o que tem para eles fazerem.

O velho Nico não está falando da mesma coisa que os que querem acabar com as carroças estão, pomba. É cegueira demente em defesa da Tradição (que não está sendo atacada)? É senilidade e saudade do tempo antigo? Tipo ouviu “carroça” e deu um *DING* no melão “ah-minha-infância-no-Alegrete!”? Ele ainda fala umas loucuras tipo quer dizer também um movimento contra os carroceiros e os cavalos, sendo que uma das grandes broncas contra os carroceiros é o tal do uso do cavalo chicoteado e maltratado. Fora a maldade simplista desonesta de argumentos como Há um grande movimento atualmente em curso contra as carroças na Capital. Isso quer dizer um movimento a favor dos automóveis…, que abre o texto e precede o lance dos cavalos.

Não tenho nada contra as carroças, não tenho nada contra o apego do Nico Fagundes às tradições, é só que achei meio vesgo o texto dele.

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3 Comentários em “Carroceiros”

  1. ana Says:

    Não, não vou comentar sobre os carroceiros… Vim só pra dizer que a frase “ostentando o desprezo pela civilização que rejeitaram” fez valer meu dia!

  2. felipe Says:

    ótimo! 🙂

  3. Leandra Says:

    E vc nem comentou o trecho em que ele fala:
    “As carroças não causam acidentes, não matam pessoas, nem animais, não colidem entre si, não competem uma com as outras, não disputam espaço, não forçam a construção de garagens. (…) podem ser ultrapassadas facilmente e evitadas com facilidade. Seu condutor não perde jamais o seu controle…”


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