To the break of dawn!

Werner Herzog, aquele velho bávaro de fala mansa, conseguiu outra vez. Segundo longa com grana hollywoodiana, Vício Frenético (Bad lieutentant: Port of Call – New Orleans, 2009) destrói. Se O Sobrevivente (Rescue dawn, 2006) decepcionou um pouco muitos admiradores da Máquina Herzogante, essa releitura do filme do Abel Cocaína Ferrara (o apenas Bad lieutenant, 1992) veio para tranquilizar a todos e deixar claro que o nosso Herz não amoleceu.

Aceito que Rescue dawn tenha deixado a desejar, eu próprio fiquei meio de cara na época. Tá mais para um drama do que para um herzog, mas convenhamos, tem uma cena com um cachorro atravessando a tela em duas patas, de graça, e isso para mim já vale (sou um cara simples). Fora que o filme não é nada ruim. Taxaram de americano, só porque termina com um festão militar com hino e bandeira. Considerando que o filme trata de soldados perdidos no Laos, e por causa da Guerra do Vietnã – algo que não exatamente exalta os EUA – um final desses soa como uma grande tiração de sarro. Por que um alemão tão comprometido com sua arte puxaria saco de americano? Pela grana? Dorme e vê se sonha que me convenceu disso.

Agora, Vício frenético. Eu sempre fico do lado do Herzog. Eu recomendo documentários dele que ainda não vi. Gosto muito do filme do Ferrara, tem Harvey Keitel abusando de gente, cheirando e CHORANDO, tem a pilha religiosa, que configura BUSCA. O Abelão ficou puto e quis que o Herzog e todos os envolvidos no “remake” (entre aspas, porque não é) fossem para o inferno, destilou veneno no estilo Alan Moore. Werner disse não saber quem era Abel e nunca ter visto um filme dele. Quem trabalhou com Klaus Kinski e tomou tiro em entrevista JAMAIS temerá um aspirador de pó made in USA, concordem.

Sites – o Firstshowing e o Slashfilm – cagaram na cabeça do primeiro promo do filme, classificando-o como desastroso. Eu, por outro lado, enxerguei a comédia e a busca inerentes ao Herzog e passei a ter expectativas concretas e elevadas. Muito elevadas. Na internet só se falava da atuação OVER THE TOP do Nic Cage, algo que foi gradativamente tomando ares de positividade para o mundo, em vez do contrário. A fala Shoot him again. His soul is still dancing já se configurava antológica. Blogueirinhos profissionais começavam a mastigação lingual. Quando saíram outros trailers, eles já começaram com coisas como “olha, parece que na verdade o filme do Herzog vai ser muito bom, ein…”. Pois é, a cada toque no teclado, uma fincada nos dedos que ousaram levantar dúvidas sobre Das Maschine (pardon me se errei o artigo, je ne parlez pas deutsch).

Era evidente que eu já estava ganho desde o primeiro trailer cômico, mas a certa altura surgiu a informação de que IGUANAS CANTAVAM em Vício frenético. Herzog já declarou, não cito fonte, que animais fazem as melhores cenas em seus filmes. E as cenas com os bichos são sempre memoráveis, sim. Galinhas e um camelo em Também os anões começaram pequenos, que também traz um macaquinho crucificado e porcos maltratados; a cobra chutada em Cobra verde; os macacos cagantes e o cavalo em Aguirre; o já citado cachorro de O sobrevivente; a galinha dançante de Stroszek, ápice da obra herzogueana; os ursos filmados por Timothy Treadwell, em O homem urso; pingüins e focas em Encounters at the end of the world; e Bruno S. e Klaus Kinski, por que não? Menciono esses momentos aí, sem forçar muito a memória.

Tudo isso foi antes de eu assistir ao filme, que só chegou aqui nesse ano. Além das iguanas, há um jacaré atropelado semimorto e um com uma câmera acoplada ao corpo (lizard cam), que faz umas tomadas nessa seqüência do atropelado. A atuação hiperbólica do Nicolas Cage é absolutamente sensacional, engraçadíssima. Gratuito como um cão atravessando a tela, Werner solta um anão para dar uma banda na rua. Uma momento comum, um cara passando, nada de mais, vocês diriam. Mas é Herzog, assim como tem bicho, tem gente bizarra. Se no filme do Ferrara o Harvey Keitel limitava-se a cheirar um pó, Herzog, além de tirar a história de NY e levar para New Orleans pós-Katrina, fez o bad lieutenant esturricar A Pedra (o nosso crack). E como já falei lá em cima, Keitel chora, atormentadíssimo com Jesus. Mas a cena abaixo é mais bizarra:

Nicolas Cage não chora, ele ri, gargalha e fica sendo over the top mesmo, armado com um trabuco violento, seu cachimbo de crack da sorte, muita coca e seu ombro prejudicado. Vamos a umas cenas.

Cheirado e com dor, um policial condecorado precisa do remédio:

As iguanas não exatamente cantam, mas a cena é essa. As olhadelas e o “sorriso” nervoso do Cage dominam o quadro em segundo plano:

Espremido no canto da parede, atrás da porta, barbeando-se eletricamente, sem dormir há 3 dias, prestes a dar uma dura em duas velhotas, em busca de uma testemunha importante:

Aqui, Nic improvisa e solta a frase que dá título ao post. Dá para ver o momento em que ele sabe que vai dizer um lance que não estava no papel, e então ele diz, sorri sinceramente e procura e encontra aprovação no Xzibit, colega de cena, e reforça a fala. No cinema, traduziram como O BAGULHO TÁ DOIDO, mas isso faz parte. Ainda rola o bônus SUP!? SUP!? SUP!? SUP!? SUP!? SUP, Motherfucka!? SUP!?:

O grande momento do filme. Nicolas Cage no auge, cachimbo da sorte em ação, his soul is still dancing:

Tudo bem, a alma do cara tá dançando. Só que ninguém poderia esperar que a alma era um filho-da-puta de moicano e tênis, FAZENDO MOINHO-DE-VENTO, porra. E no momento seguinte ao clique de uma arma sendo engatilhada, ainda antes da alma dançar, ouvimos aquela gaitinha-de-boca. Aquela gaitinha-de-boca, amigos, a mesma que botou pra dançar a maldita galinha do Stroszek, lá em 1977. É desnecessário dizer que eu já estava rindo antes disso tudo, só com a atuação do Nic; quando a gaita deu o sinal, minha cabeça comprimiu; quando o puto começou a girar de cabeça pra baixo, ao som da mesma musiquinha infernal que emoldurava a galinha dançarina, o pato baterista e coelho bombeiro da década de 70, ela explodiu. Eu linkei lá em cima o post velho sobre Stroszek, mas não me custa nada embedar o vídeo da cena de novo:

Só me resta perguntar por que eu não vi em lugar nenhum alguém perguntando para o Herzog sobre esse revival. Enfim. O filme termina – depois de todo o abuso e corrupção realizados pelo bad lieutenant – com uma nova condecoração, uma nova promoção para o policial. Sim, porque ele manda ver nas drogas, no uso excessivo de força, nos métodos menos convencionais sem se dar mal em nenhuma das frentes, sendo a condecoração final somente a cereja do bolo. Ele não paga nenhum preço por nada do que fez, apenas recebe. Pronto para recomeçar. Não uma nova vida, obviamente, mas o ciclo de mal comportamento. Bad, bad lieutenant…

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5 Comentários em “To the break of dawn!”

  1. tiago Says:

    hahahahahah post magistral! me caguei de rir novamente, como se estivesse de novo diante do nic cage alucinado e muito, mas muito engraçado.

  2. Bruno Says:

    Melhor e mais inspirado post que você já fez.

  3. felipe Says:

    obrigados!

  4. Geovani Says:

    Esperei pra assistir antes de ler esse post. Massa.


  5. […] em My son… é muito mais clara do que no hollywoodiano anterior do bávaro, o hilariante Vício frenético (Bad lieutenant: Port of call, New Orleans). Os travellings, as cenas “sem sentido” que […]


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