Li: Vozes da rua

Um tempinho atrás li Vozes da rua, do Philip K. Dick. Ele escreveu esse livro nos anos 50, mas só três anos atrás foi publicado. Não é ficção científica, como costumam ser os K. Dick.

Stuart Hadley é o protagonista. Vai ficando louco e depois dá a volta por cima. Simples.

O detalhe é que lá pelo final da estória, completamente fora de si, o demente Stuart Hadley se joga contra uma porta, numa cena bizarríssima de gore extremo. Se Hadley estava descolado da realidade, essa cena é totalmente descolada da normalidade do livro, muito inesperada e chocante.

As reverberações do estrondo rolaram pela loja; Hadley atirava todo o peso do corpo no vidro. Chocado, Fergesson ergueu involuntariamente a cabeça. A expressão de Hadley era sombria e feia, um frenesi, um animal frustrado que toldava seus olhos e deixava o rosto inchado e doentio. Ele comprimia o corpo na porta, olhando para dentro as cegas, procurando chamar a atenção de algum ser vivo.

Ele não iria embora.

[. . .]

Fergesson deu o endereço e bateu o telefone. estava no meio da escada, quase no primeiro andar, quando o tijolo atingiu o vidro da porta. Ele o ouviu em vez de ver; ouviu a explosão do vidro espatifando-se enquanto a porta era desfeita. Quando chegou à frente da loja, viu que Hadley conseguira fazer um buraco no vidro, do tamanho de uma bola de basquete. Pelo buraco, a cara de Hadley espiava, furiosa e distorcida, com trilhas de sangue fino produzidas pelos cacos de vidro.

Enquanto Fergesson olhava, Hadley estendeu a mão pelo buraco e fechou em torno da maçaneta, por dentro. Não fez diferença; estava trancada e a chave estava no bolso de Fergesson. Hadley continuou a explorar o interior da porta, puxando e examinando os cacos de vidro que bloqueavam seu caminho. Depois, abruptamente, pôs o ombro no buraco e empurrou.

O vidro tombou, caindo ruidosamente no chão. Toda uma parte cedeu e desabou para dentro; o buraco se ampliou à proporção de uma fenda em diagonal, de sessenta centímetros de extensão por trinta de largura. O casaco de Hadley se rasgou; pendia em farrapos em voltas dos braços e dos ombros.

[. . .]

Depois, de cabeça baixa, os ombros para frente, ele se jogou direto no buraco da porta. Atingiu-a com força espantosa; pedaços de vidro explodiram para todos os lados, os cacos chovendo. Do lado de fora, a multidão ofegou de pavor.

Hadley estava entalado no buraco. Mutilado, uma coisa grotesca e sangrenta, ele lutou inutilmente. Seu corpo se debatia a esmo, um aglomerado irracional de reflexo e músculos, sem uma inteligência central. Seus dedos quebrados acompanharam o que restava do vidro; o corpo tremeu e aos poucos começou a verter as entranhas. Cacos de vidro estavam presos e suas costas e nos braços, incrustados na carne. O branco chocante do rosto cintilava, molhado. O olho esquerdo pendia de seu rosto por um fio; parte do maxilar inferior havia sido espatifada.

E aí chegam a polícia e os paramédicos.

Explore posts in the same categories: literatura

Tags: ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: