Make it, don’t fake it

Uma cena urbana clássica e desesperadora: um mendigo cagando na rua. Sexta-feira passada mesmo eu me deparei com isso. Nunca me recuperarei, como não me recuperei das vezes anteriores que sofri esse ataque. Vai minando o cara. E Trash humpers (2009) começa assim.

Harmony Korine foi além com esse VHS tosco. É um abuso. O lixo branco de Nashville se expondo ao ridículo inerente, sapateado – obsessão korineana -, vandalismo, morte, risadinhas estridentes insistentes, passeios de bicicleta com bonecas amarradas sendo arrastadas, criança de terninho espancando nenê-boneca com martelo e rindo, putas, números musicais, firecrackers. E, claro, a constante: trash humping, que consiste basicamente no estupro de latas de lixo (e árvores também).

A idéia inicial do Korine era colocar cópias disso em caixas de correio importantes, mandar para a polícia, em vez de lançar como um longa. Mas lançou. Não chega perto de Gummo (1997) no lirismo, mas, e talvez por isso, o ultrapassa muito no niilismo. Do mesmo jeito que o filme de 97, não tem história, é só um apanhado de cenas cotidianas, e ainda menos linear. Um cotidiano doentio que vaga entre a realidade e o fictício, mas um cotidiano. Decerto é mais uma coleção de coisas que o Korine gostaria de ver em um filme, que é o que ele costuma dizer em entrevistas sobre suas obras. E, segundo Harm, quando ele era piá tinha uns malocas que ficavam encoxando as latas de lixo e que são a inspiração para o longa. Não é UM FILME, uma ficção. Não tem “Ok, nessa cena, ator, seu personagem vai arrebentar essa televisão com um machado”. É “Eu gravo e fico fazendo essa risadinha desgraçada enquanto vocês arrebentam essa tevê”. Tem uma diferença e é inegavelmente mais forte, porque é cru e autêntico. Idiota e estúpido também, muito provavelmente, mas autêntico, é a documentação de uma coisa que foi feita naquela hora, ao vivo, por gente de verdade.

Falando no cara cagando dei força demais para Trash humpers, corrigirei isso agora. Enquanto Gummo rouba a alma de quem vê (ou a reflete), Humpers mija nela, fica incomodando, fala perto com uma vozinha chata e sopra fumaça de cigarro vagabundo. Mas nada que se afastar e tomar um banho não resolva. Digo isso em relação ao “grau de penetração” do filme. Ou seja, ele não vai deixar marcas. Porém é um prato cheio para quem não gosta odiar. Eu gosto, tô sempre pela BUSCA e aceito o Harmony Korine. Aceito que ele pegue os bróders e a esposa e saia de máscara tocando o terror pela cidade. Porque eu já fiz isso. Não com tanta intensidade, mas fiz. Então Trash humpers tem esse lado pessoal, traz lembranças da época em que Gummo estava muito presente e que uma tentativa nossa de emular o filme seria esse VHS maldito que o Korine fez agora. “Nossa”, porque eu nunca fui um realizador, estava mais para um colaborador. But still, estive lá e foi trimassa.

Ouça a risadinha maligna.

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One Comment em “Make it, don’t fake it”

  1. felipe Says:

    entrevista com harmony korine no site popmatters: http://www.popmatters.com/pm/feature/129403-one-mans-trash…-an-interview-with-harmony-korine/


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