Glauco Mattoso – Jornal Dobrabil

[post também publicado no blog Zinescópio, onde o Jamer está disponibilizando sua coleção pessoal de fanzines, em versão PDF. Aberto a colaborações. Glauco Mattoso e fanzine são praticamente indissociáveis.]

Entre 1977 e 1981, Glauco Mattoso marretou numa máquina de escrever Olivetti 53 folhas de um imperiódico chamado Jornal Dobrabil. Em 1981 foi lançado um livro compilando todas as edições número hum!!!. Em 2001, relançaram, e eu comprei sem pestanejar. Nunca me aprofundei na poesia do Glauco Mattoso, mas conheci o suficiente para ter nele uma grande influência (a saber: merda). Nessa edição ele escreve um prefácio que traz idéias bem pertinentes para mim. Fala também da criação do Jornal Dobrabil, do contexto histórico, de suas influências, da descoberta do meio-espaço das Olivettis, que permitiu que ele criasse isso que vocês podem ver abaixo, nas fotos que tirei do livro.

Antes delas, alguns trechos do prefácio que me importaram mais:

Quando resolvi fazer poesia, em 74, não ambicionei preencher a lacuna. Queria apenas brincar com alguns ingredientes da minha formação intelectual. (. . .) Como nunca fui de me engajar política e esteticamente, minha poesia não seria militante nem maneirista: teria que ser um pastiche daqueles ingredientes [Bocage, Sade, Ionesco, Pittigrilli, biblioteconomia, letras, Mário e Oswald de Andrade, a vanguarda concretista], uma somatória de tudo.

(. . .)

Nunca tive veleidades literárias, no sentido de estar fazendo algo original, inovador, ou de vanguarda. Isso não existe. No Brasil confunde-se vanguarda com elitismo. (. . .) Em terra de leigo, original é quem plagia primeiro.

(. . .)

Acabei posando de vanguardista com uma proposta estética que credenciava meu trabalho: a COPROFAGIA. Fiz a apologia da merda em prosa & verso, de cabo a rabo.

(. . .)

A estratégia anarquista do DOBRABIL se coroava e radicalizava por meio dum plagiarismo “intertextual” levado às últimas conseqüências, graças a um expediente extremo: multiplicar o heterônimo pelo apócrifo.

(. . .)

Resumindo e concluindo, ao caos visual soma-se o caos textual, e ambos são multiplicados pelo caos autoral, numa perfeita harmonia caótica – paradoxo emblemático da própria contradição inerente à minha biografia de poeta apolineobarroco e arcadionisíaco.

Às imagens. Clique para ver maior.

Leia os sonetos dele.

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One Comment em “Glauco Mattoso – Jornal Dobrabil”


  1. […] publicado originalmente, você confere mais fotos do livro e alguns belos trechos do prefácio: https://felipeta.wordpress.com/2011/02/22/glauco-mattoso-jornal-dobrabil/. from → Conteúdo ← A Bolha #01 LikeBe the first to like this post. No […]


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