NOTRE JOUR VIENDRA (2010)

Romain Gavras é filho do Costa-Gavras e membro/co-fundador do coletivo Kourtrajmé, que tem Kim Chapiron (e mais de 130 outros membros), responsável pelo inócuo Sheitan (2006), com Vincent Cassel – única razão para ver o filme -, que é, pelo que entendi, um apoiador do coletivo ao lado do Mathieu Kassovitz (que fez O ódio/La haine e foi o namoradinho da Amélie). Nada disso importa.

Esse Gavras é conhecido principalmente pelo clipe Born free, da M.I.A. Aquele em que explodem ruivos.

Em Notre jour viendra os ruivos são as figuras centrais de novo, e novamente com um tratamento de ficção científica/fantasia, como se fossem um povo, uma raça vítima constante de bulimento (bullying, se quiser) e segregação no mundo real. Ou talvez só os dois protagonistas enxerguem a vida assim, embora Rémy (Olivier Barthelemy) seja mesmo uma vítima. Eu estava pronto para questionar essa fixação do Gavras jovem pelos ruivos, já que não, eles não são segregados como são os negros, os judeus, os árabes e outros em variados contextos sociais; do mesmo jeito que morenos, loiros, carecas e pessoas de olhos verdes não são (estou falando de segregação social hardcore, não de frescurite ou piadinha). Mas nada que uma cagada não resolva. Revelou-se-me no banheiro o trivial: o absurdo do preconceito com um ruivo é análogo ao absurdo de qualquer outro preconceito do tipo. Imaginei eu que fosse essa a “política” do Romain. Escolher os ruivos torna menos NA CARA politicamente, decerto, e também mais BACANA, acho. Mas aí eu já estou divagando. Talvez eu devesse pesquisar e descobrir qual é a do cara com os ruivos. Então eu pesquiso e voilá:

I use gingers as the oppressed people because they’re a visible minority, but they have no community, which is interesting to me. They’re kind of a good symbol for what it is to be different. It’s more about people being different from the rest of the world, and being frustrated.

Acontece que Rémy e Patrick (Vincent Cassel) são dois ruivos nem um pouco sãos. E tampouco são muito ruivos. É, os dois caras são pouquíssimo ruivos, nem nessa classe eles se encaixam. Rémy é um cara quieto e maltratado pelos outros, joga World of Warcraft e tem uma namorada lá, que ele nunca viu de verdade. Patrick é um psicólogo que não tá nem aí para os pacientes, come salgadinho enquanto eles falam. Rémy recebe uma mensagem da namorada, que ameaça se mutilar. Ele corre para conversar com ela na internet, mas sua irmã está no computador, porque é a vez dela. Eles brigam, a mãe aparece, apanha do cara, ele cospe na guria e sai de casa para achar a namorada. Patrick tá passando de carro e vê a bagunça. Encontra Rémy no meio do caminho e dá carona para ele.

Agora eles são uma dupla. O psicólogo acompanha Rémy até o lugar onde está a namorada, convence ele a ir falar com ela, que ela quer que ele se imponha e entre no campinho dela e tal. A namorada é na real um gótico. Todos riem. Rémy é bulido até pelos nerds do World of Warcraft. Patrick vai se revelando um racista, perverso e violento, que vai cutucando a cabeça de Rémy, tentando fazê-lo deixar de ser tão passivo e submisso. Eles empreendem uma busca demente pela salvação ruiva, ou às vezes simplesmente uma jornada de destruição, desespero e loucura. Rémy acha que é o messias ruivo e que a Irlanda é a terra prometida, onde os ruivos vivem felizes. Acha também que é gay. Patrick pouco faz para dissuadi-lo disso, e até apóia. Eles compram um carro fodão, roupas elegantes, uma besta e partem. Ambos intercalam e trocam entre si momentos de passividade, hiperatividade, submissão e dominação ao longo da viagem até Calais, onde pegarão a barca para a Irlanda. Isso tudo num crescente de violência e histeria, tocando o terror em todo mundo.

Esperava mais, porém não sei exatamente o quê, então não me darei o direito de me decepcionar. Gostei muito do visual e do clima apocalíptico do filme. Demência e vazio. Vida vã.

Trailer.

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