Cioran – Odisseia do rancor

Mais trechos de História e utopia, de Emil Cioran.

Passamos a maior parte de nossas vigílias despedaçando em pensamento nosso inimigos, arrancando-lhes os olhos e as entranhas, comprimindo e esvaziando as suas veias, pisoteando e esmagando cada um de seus órgãos, deixando-lhes apenas, por caridade, o prazer de seu esqueleto. Feita essa concessão, nos acalmamos e, exaustos, caímos no sono.

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O programa de nossas noites seria menos pesado se, durante o dia, pudéssemos dar livre curso a nossos maus instintos. Para atingir não tanto a felicidade, mas o equilíbrio, teríamos que liquidar uma boa parte de nossos semelhantes, praticar cotidianamente o massacre tal como faziam nossos afortunados e longínquos ancestrais.

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Não vingar-se é submeter-se à ideia de perdão, é afundar-se nela, é tornar-se impuro por causa do ódio que se sufoca dentro de si. O inimigo poupado nos obseda e nos perturba, sobretudo quando decidimos não detestá-lo. De toda maneira, só o perdoamos de verdade se contribuímos para sua queda, ou a assistimos, se ele nos oferece o espetáculo de um fim desonroso, ou se, suprema reconciliação, contemplamos seu cadáver. Felicidade rara, é verdade, e mais vale não contar com ela. Pois o inimigo nunca está por terra, sempre se encontra de pé e triunfante. Sua primeira qualidade é erguer-se diante de nós e opor a nossas tímidas chacotas seu sarcasmo escancarado.

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A multiplicação de nossos semelhantes beira a imundície; o dever de amá-los beira o absurdo. [. . .] Aquele que é fraco demais para declarar guerra ao homem nunca deveria esquecer, em seus momentos de fervor, de rezar pela vinda de um segundo dilúvio, mais radical que o primeiro.

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O conhecimento arruína o amor; a medida que desvendamos nossos próprios segredos, detestamos nossos semelhantes precisamente porque se assemlham a nós. Quando já não se tem ilusões sobre si mesmo, também não se tem sobre os outros.

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Detestamos aqueles que “escolheram” viver na mesma época que nós, que correm a nosso lado, que entravam nossos passos ou nos deixam para trás. Em termos mais claros: todo contemporâneo é odioso.

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O ressentimento, causa vulgar, logo eficaz, da inspiração, triunfa na arte e na filosofia: pensar é vingar-se com astúcia, é saber camuflar as perfídias e velar os maus instintos. [. . .] Em conflito com o mundo, o pensador é frequentemente um fraco, um raquítico, tanto mais virulento quanto mais sente sua inferioridade biológica e sofre por isso. Quanto mais for rejeitado pela vida, mais tentará dominá-la e subjugá-la, sem consegui-lo.

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Não esquecer a injúria é um dos segredos do êxito, uma arte que possuem sem exceção os homens de convicções fortes, pois toda convicção é feita principalmente de ódio e, em segundo lugar apenas, de amor.

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