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Projeto Herzog: O grande êxtase do entalhador Steiner (1974)

07/05/2012

<antes: Projeto Herzog: Aguirre, cólera dos deuses

Herzog fez esse documentário a convite de uma rede de tv alemã, e teve que fazer as vezes de “repórter”. Constitui-se assim a primeira aparição dele diante da câmera. É a primeira vez, também, que ele entra como narrador. E o Herzog enquanto voz, todos sabemos, é tão grande quanto como diretor.

Falar dos filmes da Máquina Herzogante é se repetir: Walter Steiner é um outsider.  Um atleta suíço do salto de esqui que só queria voar. Voar como o corvo que tinha na infância, que adoeceu e, impedido de voar, sofria ataques dos outros corvos. Steiner era tão superior aos outros atletas que aterrissava de seus saltos perigosamente longe demais, quase fora do declive destinado ao pouso, mesmo quando não dava o melhor de si.

Walter Steiner fala dos perigos do esporte e da impossibilidade de parar de praticá-lo, enquanto pesca no gelo com o flagrante sofrimento resignado e tranquilo dos condenados. Werner Herzog faz suas participações com o semblante e o tom de quem noticia a morte de um homem. Ou de todos os homens.

Desrespeito a limites, morte iminente, indivíduo visionário ou simplesmente louco que não consegue evitar a busca da realização de seu sonho ou delírio. Se AO ABISMO poderia ser o título de qualquer filme do Herzog (e poderia), esses termos estariam na sinopse de cada um. E tem também a música do Popol Vuh.

Assista ao documentário, adentre o mundo extremo do esporte (comprometimento, competição, desafio, glória, excelência, dor, desespero e morte) ao estilo Herzog, e aguarde as Olimpíadas de Londres.

I ought to be all alone in the world, just me, Steiner, and no other living thing. No sun, no culture, myself naked on a high rock, no storm, no snow, no banks, no money, no time, no breath. Then, at least, I wouldn’t be afraid. – Werner Herzog, sempre buscando.

VIVA HERZOG!

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Projeto Herzog: Aguirre, cólera dos deuses (1972)

01/05/2012

<antes: Projeto Herzog: Land of silence and darkness

O negócio começa a ficar sério aqui. Aguirre é o primeiro longa do Herzog com o Klaus Kinski. É o filme mais antigo que costuma figurar em listas que se propõem a apresentar a obra da Máquina Herzogante. Aliás, até que o documentário Homem urso fosse lançado (em 2005!), eram a década de 70 e a parceria com Kinski que costumavam representar o velho Werner.

Minha experiência com Herzog é tardia, foi só em 1999 que tive contato com sua obra, através de um doc dele justamente sobre seus duetos com o lendário Klaus Kinski. Até então o louco Klaus era uma figura mais popular do que o Werner na minha mente. Antes disso creio que tinha um pequeníssimo conhecimento da obra herzogueana, fundamentalmente seus filmes dos anos 7o, tipo Aguirre, Kaspar Hauser e Nosferatu. Conhecimento limitado a: já tinha ouvido falar, sei que esses filmes são desse mesmo cara, mas nunca vi nenhum. Era a época do VHS, não era qualquer locadora que tinha filme europeu à disposição. E eu era um jovem, não tinha grande interesse em ver. Tarkovsky, por exemplo, despertou minha curiosidade antes, inclusive, com a promessa de ter feito um filme, segundo meus pais, impossível de ver até o fim. Isso evidentemente me atraía muito mais do que “tem um diretor alemão que fez esses 3 filmes que eu sei o nome”.

Essas lembranças vagas servem para estabelecer que Werner Herzog já era conhecido e respeitado antes de ser pop, antes da internet, antes de morar em Hollywood, salvar o Joaquin Phoenix, tomar tiro em entrevista. E para reforçar, embora ainda não tenha sido dito, que Aguirre é, de certa forma, o começo do Herzog, ou seja: seu primeiro grande filme que é realmente conhecido pelo cidadão comum (ou pelo cidadão um pouco acima da média, quem sabe). Não falo da “identidade”, do “estilo herzogueano”, de como suas características amadureceram e ficaram mais fáceis de identificar, porque isso já aparece desde o começo, nos curtas, longas e documentários que já foram cobertos no presente Projeto e que, com a minha experiência atual, pude perceber retroativamente e escrever sobre.

Em Aguirre, Herzog retrata mais uma vez o fracasso retumbante que o frustrado solitário conquista depois de começar uma briga que ele não pode vencer. E esse é o coração da obra de Werner Herzog. Ou um deles. O outro é, claro, a natureza.

Uma expedição espanhola pretende conquistar a floresta tropical, evangelizar selvagens, encontrar o lendário El Dorado. Apenas pretende, porque o Herzog começa a nos ensinar: a natureza, linda e horrível, implacável, não pode ser domada. O que parecia o início de um épico sobre as conquistas européias do século 16 logo se revela uma viagem cujo único destino é a destruição.

Além da primeira parceria do Herzog com o Kinski, os músicos alemães progressivos psicodélicos do Popol Vuh fazem sua estreia como metade de outra dobradinha lendária, criando a trilha sonora e elevando a falta de rumo dos conquistadores espanhóis a um outro patamar de perdição. A vastidão do rio e da floresta ganham uma força sinistra, como se a natureza fosse uma fonte geradora de demência, uma existência suprema que absorve todos os outros Seres, obliterando-os. Diz um selvagem: Nesse rio, deus não terminou a Criação.

Porém não. Não tem nenhuma força sinistra, nada de sobrenatural, “roteiristicamente” falando. Não é ficção científica/terror/fantasia. É só uma leva de conquistadores espanhóis com seus índios escravizados se dando mal na cheia do rio da floresta tropical. Uma ideia que tomou de assalto o Herzog e fez com que ele escrevesse um roteiro em 2 dias, que logo foi perdido. É um filme tão à deriva quanto os personagens. Mas um filme do Herzog com Klaus Kinski.

É o início da lenda Herzog, o diretor que não teme nada, que é ameaçado e ameaça de morte, que forja permissões para filmar, que coloca em cena macacos roubados de traficantes de animais e depois liberta os animais na selva. O que a gente vê no filme a gente sabe que aconteceu. Não foram apenas os personagens que tiveram que enfrentar a fúria do rio e da floresta, não houve uma produção que primasse pela precaução, pelo controle da situação. Com Herzog, tudo é de verdade. Até o que não é. E isso torna Aguirre e Herzog especiais. Vamos ao Peru filmar em balsas no rio. A premissa é tal, chegando lá a gente vê o que resulta. Paradoxalmente, a simplicidade da filmagem, o orgânico, o fato de os atores estarem passando realmente pelo que os personagens estão passando proporciona um nível de ficção maior do que se poderia criar com uma produção mais dedicada. Não tem recursos dramáticos e cenas de ação, porque a vida real não tem. Nada do pouco que acontece tem mais peso do que o acontecimento anterior ou que o acontecimento fundamental que é a vida, que é estar perdido e sem chance. Eu não sou intelectual, não tenho bases para expôr essa dicotomia entre o real e a ficção, de forma a mostrar que a verdadeira ficção é a realidade, que a realidade é mais ficcional que a ficção. Mas creio que por aí resida o conceito de ECSTATIC TRUTH do Herzog. O êxtase da verdade. Herzog diz que os fatos não são suficientes para mostrar a realidade. Mas isso é viagem demais para algo que não sei explicar. Retomo o texto. Por outro lado, o filme parece estar dentro de uma bolha, de uma redoma, mostra um universo onde é impossível construir alguma coisa, ter êxito. COMO SE a selva fosse um triângulo das Bermudas. Nesse ponto, há sobrenaturalidade digna de ficção científica. Notas de um ignorante. Masturbe-se você com CRÍTICAS CINEMATOGRÁFICAS de quem estudou. Procura na internet.

Aguirre é um lindo exercício teatral que o Herzog passou para o Klaus Kinski fazer. Herzog diz que o que ele aprendeu com Kinski, não aprendeu com mais ninguém. Investiu na histeria dele para produzir. Ainda jovem, na primeira vez que Werner viu Klaus, descobriu que seu destino era fazer filmes para o homem atuar. Dez anos depois, com Fitzcarraldo, tudo isso se repete e intensifica, virando um documentário (Burden of dreams (1982), de Les Blank, o cara que filmou a lenda bávara comendo seu próprio sapato em 1980). Lope de Aguirre, o traidor visionário sedento por poder e fama só poderia ser criado e suportado por Herzog e Kinski, por ninguém mais. Enquanto todos morrem e macaquinhos tomam conta da balsa, Aguirre  planeja o seu império, pensa na dinastia pura que iniciará casando com sua própria filha, que é apenas mais uma das vítimas das flechas dos selvagens amazônicos. Megalomania e loucura de mais um pobre coitado sozinho no mundo.

E como um bom herzog, em alguns momentos a câmera é atraída pelo que há de interessante nos locais de filmagem, tendo isso a ver com a história ou não. E geralmente não tem. Como o próprio Werner vai nos mostrar ao longo de sua carreira, tem coisas que são mais interessantes do que aquilo que está no roteiro. Sejam essas coisas galinhas canibais, jacarés albinos, uma história sobre um encontro com um esquilo.

Aqui, apenas um peruano e uma lepidoptera. Anos depois, em Meu melhor inimigo (1999), o doc sobre a relação de Herzog com Kinski, repete-se a cena. A inimaginável interação entre o insano e eterno Kinski e a frágil e efêmera borboleta, nas filmagens de Fitzcarraldo (1982).

À deriva como Flores, filha de Aguirre, a atriz Cecilia Rivera fora do personagem e dentro do filme. Herzog.

Ainda como um bom herzog, comédia.

Desenganado e delirante, ele nega a existência das flechas.

Referência sem nenhum sentido à saga islandesa de Grettir. Herzog ri muito quando fala disso.

Enquanto Hollywood filma épicos, Werner Herzog vai ao Peru filmar com Klaus Kinski. Nas palavras dele: humilhação, noites de insônia. Não se calcula um filme desses em termos financeiros.

VIVA HERZOG!

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Projeto Herzog: My son, my son, what have ye done (2009)

04/09/2010

Ever since he came back from Peru he’s been strange. Well, not so much strange, different.

I'm not going to take your vitamin pills. I'm not going to drink your herbal tea. I'm not going to the sweat lodge with an 108-year-old Native American who reads Hustler magazine and smokes Kool cigarettes. I'm not going to discover my boundaries. I am going to stunt my inner growth. I think I shall I become a Muslim. Call me Faruk.

Numa edição extraordinária do Projeto Herzog, um dos mais recentes dele (já tem outros 2 mais recentes para aparecer em breve, a Máquina Herzogante não pára). Registrei no bloguinho, meses atrás, o trailer da obra. Agora ela está aqui. O filme do Herzog produzido pelo David Lynch.

My son, my son, what have ye done trata de um cara que cometeu o matricídio com uma espada, depois de ficar um ano atormentado. Durante uma viagem ao Peru, Brad McCullum (Michael Shannon trimassa) vê Deus. Ouve uma voz que o alerta para que não desça o rio de caiaque com os amigos. Ele não desce, os amigos descem e morrem. A partir de então ele, volta e meia, chama a si mesmo de Faruk. Nos meses mais recentes, deprimido e completamente delirante, diz para a noiva (Ingrid, Chloë Sevigny) que Deus vive na cozinha de sua casa.

Deus.

Casa essa em que Brad vive com sua sufocante mãe, interpretada pela louca mãe da Laura Palmer, Grace Zabriskie. A casa com a maior concentração de objetos de decoração e quinquilharias afins de FLAMINGOS, inclusive dois de carne e osso, McDougal e McNamara.

Eagles in drag.

O filme caminha devagar, meio flutuante, destacado do mundo – onírico, mas não lynchiano -, numa urgência lenta que não nos deixa nervosos, tensos. Não, o Ser vai sendo preenchido aos poucos pelo filme, que lá ficará, porque Herzog é isso. Mas estou divagando, tentando ser poeta. Temos Herzogão retornando ao Peru (eu diria “vide Aguirre”, mas é justamente onde estou parado no Projeto), cenas na China, avestruzes engolindo óculos e tendo-os retirados da goela. Temos curtos travellings embalados pela trilha sonora, que garantem a FLUTUÂNCIA do filme, que é construído com flashbacks a partir dos depoimentos de Ingrid, Lee (Udo Kier, diretor da tragédia grega sobre matricídio que Brad encenaria se não tivesse passado dos limites, aka despirocado. Some people act a role, others play a part. Tipo Herzog dirigindo Kinski.) e as duas vizinhas da casa da frente, onde a mãe é morta.

Razzle them. Dazzle them. Razzle dazzle them.

A marca herzogueana em My son… é muito mais clara do que no hollywoodiano anterior do bávaro, o hilariante Vício frenético (Bad lieutenant: Port of call, New Orleans). Os travellings, as cenas “sem sentido” que valem mais pelo lirismo, as interpretações estranhas, a câmera parada enquadrando personagens por constrangedoramente tempo demais (adoro isso), as locações internacionais e seus autóctones. E, claro, muito mais que no Vício…, agora é a velha premissa do solitário contra o mundo, do cara que não se encaixa e enlouquece, do marginal, outsider obsessivo e obcecado. Algumas outras coisas eu contarei com as imagens.

Sim! Por que não haveria um anão de smoking no filme do Herzog?? É claro que tem. Brad Dourif, o tio Ted de Brad, cria avestruzes. Ele quer que imaginemos um anão montado no menor cavalo do mundo sendo perseguido por um peru gigante, UM BEHEMOTH, ao redor da maior árvore do planeta. Que belo comercial de televisão seria! Daria muita grana. Comercial de quê? Como é que eu vou saber? Mas vai ser demais.

I'm born to preach the gospel.

Can't you see it, Lee? This is the tunnel of time. Woudn't it make a perfect stage for a cosmic melodrama?

Why are the mountains staring at me? Why are the clouds looking upon me? Why is everyone staring at me? Why is the whole world staring at me?

This is my way of bringing Heaven to Earth.

De repente, China.

E Tijuana.

I'm hoping some young future player will find it.

Did you see that, Ingrid, the whole world almost stopped.

I’m just following this inner voice. It feels so good to say goodbye to your things.

Kill me before it happens.

Forget about flamingos. I see ostriches. I see ostriches running.

Baseado num caso real. Bela obra!

VIVA HERZOG!

Projeto Herzog: Land of silence and darkness (1971)

04/04/2010
<antes: Projeto Herzog: Fata Morgana

Land des Schweigens und der Dunkelheit é o primeiro documentário de verdade do Herzog. Digo isso porque esse ele não fez a pedido de nenhum amigo, ao contrário de Flying doctors of East Africa e Handicapped future.

Enquanto filmava a situação dos filhos da talidomida, a Máquina Herzogante se encantou com a vida de uma velhota, Fini Straubinger, surda e cega. Ela não aparece no doc citado, claro, afinal de contas  o problema dela é outro.

Fini Straubinger visita várias outros cegos-surdos, conterrâneos do silêncio e da escuridão. Ela não cansa de destacar a depressão e o isolamento das pessoas como ela. Parecido com o Handicapped future, nesse sentido, mas mais triste e forte. É um herzog true, já mencionei. Se Fini fosse uma pintora, o quadro da vida dela teria um rio preto e lento se encontrando com um rio límpido e silencioso em um lago escuro, sombrio e profundo, passando por pedras, que são a depressão que ela sentiu quando viu que não escutava mais. Nas margens, árvores e passarinhos cantando.

Do mesmo jeito que tem no Handicapped future, embora eu não tenha dito no post dele, sentimos uma ingenuidade, uma tristeza, especialmente da Fini Straubinger. Ela contando como ficou gradualmente cega e surda é arrasador; fatia teu coração e salga com lágrimas a resignação com que ela conta. Fugiu para a religião, ganhou força, mas a solidão permaneceu. As pessoas diziam que iam visitá-la, mas não iam. Conversavam com sua mãe e ela ficava no silêncio e no escuro.

Gente que não escuta nem enxerga, e nós estamos vendo e ouvindo elas. E a gente fala e se movimenta e vive normalmente, mas não temos nenhuma noção do que se passa na cabeça dessa gente diante de situações como um banho, uma viagem de avião ou o que for. São frequentes os casos de cegos-surdos que foram abandonados pelos pais e não tiveram chance de sequer aprender a andar, ou então esqueceram-se de como se escrevia e falava. O que nos leva ao momento mais paulada do filme: Vladimir Kokol.

Um homem viveu por um tempo entre vacas, porque não tinha mais sentido viver entre humanos. É o mesmo cara que encerra o filme, vagando solitário no quintal, tocando obsessivamente uma árvore. Melancolia pesada. Depois ele entra em casa, acompanhado pela mãe, e é a vez de a câmera se perder, enquadrando mal árvores e frau Straubinger, dando para o espectador um (des)gosto desproporcionalíssimo da vida daquela gente. Fim.

Desproporcional? Não preciso, mas vou dizer assim mesmo. Não tem diferença nenhuma entre a vida dos cegos-surdos e a nossa, além dessa óbvia. Herzog fez um filme sobre o gênero humano. Nós também vivemos sozinhos, catando gente que compartilhe das mesmas deficiências, para diminuir minimamente a depressão e o isolamento em que estamos. E saca só, a solidão continuará.

VIVA HERZOG!

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Projeto Herzog: Fata Morgana (1971)

22/03/2010
<antes: Projeto Herzog: Handicapped future

O terceiro longa da Máquina Herzogante. Um filme contemplativo que consiste basicamente em imagens do deserto do Saara captadas de cima de um ônibus guiado pelo Werner. Planos longos, com câmera em movimento e parada, regados com a leitura do mito criacionista maia Popol Vuh, textos escritos pelo próprio Herzog e músicas, com destaque para canções do primeiro disco do Leonard Cohen.

O homem diz que Fata Morgana* é um filme de ficção científica, que é como se alienígenas tivessem vindo à Terra e feito imagens. Não tem como não pensar no Koyaanisqatsi (1982), embora o filme do Herzog não seja hippie e seja menos direto, além de bem menos grandiloqüente & elaborado visualmente. É a coisa das imagens serem os personagens da “trama”. Foi durante as filmagens desse longa que o Herzog e sua equipe foram presos, como já mencionei no post sobre Também os anões começaram pequenos, que foi feito simultaneamente a essa película. Motivo da prisão: o câmera tinha o nome parecido com o de um mercenário que estava foragido. Mas vamos às figurinhas, então, porque não tenho muito o que escrever sobre o filme. Comentários adicionais estarão nas legendas.

O anão e o dromedário ajoelhado de Também os anões começaram pequenos?

Os mesmos óculos dos anões cegos de Também os anões...

Todos tem a sua vez de falar "Der Blietzkrieg ist Wahnsinn". A blietzkrieg é loucura.

Um lê sobre a dificuldade de cultivo na região, outro filma e outro toca um som e ri.

*Fata Morgana, aos desavisados, é uma miragem.

VIVA HERZOG!

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Projeto Herzog: Handicapped future (1971)

17/03/2010
<antes: Projeto Herzog: Também os anões começaram pequenos

Behinderte zukunft? é outro documentário feito a pedido de um amigo do Herzog. Assim sendo, funciona como o Flying doctors of East Africa, é um doc prático, objetivo, sem grandes reflexões além das que o tema suscita por si só. Porém é melhor.

Handicapped future mostra a situação dos deficientes físicos na Alemanha, principalmente os filhos da talidomida. Pesquisas revelavam que os cidadãos alemães não queriam viver com deficientes, que totalizavam mais de 4,5 milhões, sendo 470.000 crianças em idade escolar.

Em 1968, construíram uma cohab adaptada para que as crianças pudessem viver com seus familiares “saudáveis”. Antes disso, elas ficavam em instituições especializadas. Mas minha função aqui não é a mesma do documentário, tá parecendo trabalho de colégio.

Tem depoimentos de crianças deficientes, dos pais delas, de crianças “normais” que convivem com as crias. Dagmar, de 6 anos, entedia-se na escola quando os outros praticam esportes. Aí ela gosta de pintar e ficar pensando sozinha. Pensa nos índios nos Estados Unidos e pensa em caminhadas, que ela não pode fazer. Fica imaginando que poderia subir e descer as escadas, levar o irmão pra escola. Ela só usa o elevador, porque tem medo das escadas. Depois de passar a tarde pensando, lá pelas 5 ela esgotou suas idéias.

Dagmar quer ver um índio de verdade

Uma mãe diz que os velhos são os que mais ficam encarando as crianças, e que os vizinhos acham que a filha dela vive sentada dentro de casa sem fazer nada o dia todo, só porque não tem braços.

Na escola, professoras mostram desenhos que as crianças fizeram. A evolução em como elas se retratavam: um tempo antes uma se desenhara com braços, para depois desenhar sem tais membros e dar destaque para os pés e dedos dos pés, que obviamente fazem o serviço para ela. Outra fez um autorretrato e entregou à professora. Depois pegou de volta e PINTOU LÁGRIMAS nele. Busca. Muitas crianças pintam o isolamento que sentem em relação ao mundo.

Busca os tons do rosto serem semelhantes aos tons da roupa da criança. E ali as lagriminhas.

Depois vem uns contrastes. Uma mãe, que só sai com o filho no inverno e de carrinho, quando ele pode ficar completamente enrolado e coberto, reclama que as pessoas na rua ficam olhando e fazendo perguntas idiotas, e que tudo isso é muito estressante pra ela. Aí o guri só sai com outros familiares, para evitar o desgosto da velha. Muito irritante, a mulher, ok? Lamento. Outra mãe, com 2 filhos prejudicados, estimula pra cacete as crianças, não esconde elas, faz com que elas mantenham os quartos em ordem, trata como GENTE NORMAL, por assim dizer.

(Há também os adolescentes de cadeira de rodas. São adolescentes, amargos, darks, misantropos, toda aquela POESIA. Deu.)

Saindo da Alemanha, o doc vai pra Califórnia, ver como um alemão se vira por lá. Vira-se muito bem, os prédios públicos têm acesso para deficientes, o cara dirige um carro, é “assistente científico” na universidade e só precisa de ajuda em algumas coisas. O cara diz que lá não tem preconceito, que deficientes estão integrados à sociedade e que não tem obstruções arquitetônicas como em Munique. Na sociedade orientada por conquistas, ele é julgado por aquilo que pode fazer, não pelo que não pode.

O filme conclui com um pensamento parecido com o que fecha Flying doctors of East Africa: se a forma de pensar não mudar, o futuro é negro. Até que mudanças ocorram só poderemos oferecer às crianças deficientes… um futuro deficiente. E, novamente, não sei como está a situação 40 anos depois, mas imagino que esteja melhor que a da África.

VIVA HERZOG!

Projeto Herzog: Fata Morgana: depois>

Projeto Herzog: Também os anões começaram pequenos (1970)

16/03/2010
<antes: Projeto Herzog: The flying doctors of East Africa

O Projeto Herzog chega aos anos 70, e podem crer que daqui pra frente tudo, tudo, tudo vai ser diferente.

Como eu já escrevi no post 3 curtas, o curta-metragem Jogo na areia nunca foi lançado ou exibido publicamente, mas foi uma espécie de embrião de Também os anões… Ou seja, aquilo que não tivemos nos anos 60, teremos abrindo os anos 70, e com muito mais potência.

Eu escrevi sobre Even dwarfs started small (Auch Zwerge haben klein angefangen) há quase 3 anos. Tentei fazer um panorama de toda a demência que acontece no filme, então não vou me repetir. É ESSENCIAL ler o texto antigo, porque é lá que vocês saberão – me repito – o que acontece na película, tendo assim base para entender minimamente as imagens e saber do que estou falando – na verdade, do que Herzog está falando. Sim, porque dessa vez vi Anões com os comentários da Máquina, para trazer informações que no texto antigo não existiam, porque na época eu pegara emprestada uma versão sem eles. E de posse de um download próprio, brindarei o público com cenas captadas da tela, outra coisa que não houve 3 anos atrás. Como o tempo destrói tudo, os vídeos com trechos que eu coloquei no já referido post não mais existem. Procurei por cima no YouTube e só encontrei bobagens, tipo a cena clássica do anão rindo, mas sem áudio. Em vez do áudio do filme colocaram um Nile, para fazer de conta que o midget tava destruindo na bateria… Uau, parabéns, pela criatividade.

Cena inicial. Durante uns 60 segundos, o anão tenta mostrar a placa de maneira correta, girando-a de todos os jeitos possíveis. Fracassa.

Começou, então dirijam-se imediatamente para lá e leiam sobre esse pesadelo do Herzog, a comédia mais negra que pode existir, segundo o próprio.

+++

Leram? Adiante. Lembrando que muito pouco do que escreverei é MEU. Se acharem POESIA, é porque transcrevi os comentários da Máquina Herzogante.

Também os anões foi filmado em pouco mais de um mês, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, ao mesmo tempo em que rolavam as filmagens de The flying doctors os East Africa (post anterior do Projeto Herzog, linkado lá em cima) e Fata Morgana. O Herzogão passou por maus bocados nesse período; passou sede, teve malária e foi preso na África, onde foi maltratado, diz ele. Daí saiu all the gloom and darkness de Também os anões.

Não se deixe enganar por esses rostinhos angelicais.

 

É um filme que mostra um mundo onde todos são anões. Eu, tu, todos nós. O mundo cresceu demais e fugiu de suas proporções, tornando tudo que existe nele monstruoso. Não são os anões os freaks, é o mundo. Essa obra vai além da experiência comum, é EXTÁTICA, traz um desespero profundo que só existia no cinema expressionista de décadas atrás; sentimos a escuridão, algo fatal e inominável à espreita. Para Herzog, Também os anões vai sobreviver aos seus outros filmes; Aguirre, por exemplo, é jardim da infância perto desse. Se Goya e Hieronymus Bosch fizeram seus trabalhos grotescos, porque Werner não faria? Sem megalomania, ele apenas pegou emprestada a coragem de artistas como aqueles.

Perdeu, Herr Direktor.

 

São as galinhas canibais caçando a galinha perneta; os porquinhos mamando na porca morta; os anões cegos brandindo com violência e perigo seus bastões, enquanto são sacaneados pelos outros; vandalismo, risadas descontroladas; uma caminhonete viciosamente em círculos; flores regadas com gasolina e incendiadas; o macaco crucificado e a loucura final daquele que parecia ser o único são da história.

No bico, um rato.

Herzog recorda a época em que trabalhava no estacionamento da Oktoberfest, quando mandava os donos dos carros embora em táxis e se divertia com os carros assim.

Vandalismo. Quebrando ovos.

Máquina de escrever, tapete, nada deve sobreviver.

Dois cegos e uma porca morta.

Momento solene à mesa.

Momento solene à mesa.

Uma umidificada no palato.

Flores de fogo.

Briga de galo.

Monkey god.

 

Não é preciso dizer que blasfêmia e animais sendo explorados foram os grandes responsáveis pelo longa ser banido pela censura informal e por Herzog receber ameaças por tentar exibi-lo. Ele teve que alugar cinemas para conseguir passar o filme. Tampouco os dogmáticos de esquerda gostaram do filme, porque para eles era uma mostra de que a revolução era catastrófica. Mas também, convenhamos, O QUÊ não é motivo de desgosto para essa gente…?

 

As galinhas do filme apareceram por acaso, não estavam no roteiro, como também não estava escrita a morte da porca. Werner considera as galinhas os animais mais estúpidos que existem, tem medo delas, mas elas estavam lá, comendo umas às outras, comendo ratos, PRECISAVAM ser filmadas, eram mais interessantes do que o roteiro. É o retrato nada otimista da mãe-natureza, uma prova de que algo saiu muito errado na Criação. Werner ri. A porca seria morta por um açougueiro de qualquer jeito, Herzog apenas pediu que isso fosse feito no local da filmagem. Não tem violência e tripas, o abate não é mostrado, simplesmente a bicha morre e os porquinhos vão mamar nela. Os anões curtem uma depressão em volta da cena. Real. Para Werner Herzog não existe diferença entre filme de ficção e documentário. Ele considera Fitzcarraldo (1982) seu maior documentário, inclusive.

Galinhas usadas para quebrar as janelas da sala do diretor.

Rebeldes ameaçando matar um dos anões cegos. O outro já foi.

Caminhonete empurrada em um POÇO SEM FUNDO. Ela SOME no buraco, causando demência em quem vê. Herzog ri.

O ceguinho sobrevivente escapa e só quer que tudo aquilo termine.

 

E a comédia? O post de 3 anos atrás era cômico, exaltava Werner Herzog como o gênio da comédia. Ele próprio fala que esse filme faz ele rir até doer a barriga. Nós vivemos num mundo monstruoso, e anões com suas dificuldades motoras e risadinhas agudas são engraçados, eu lamento informar. E a risadinha do Hombre, o midget principal, era tão importante quanto os diálogos, ele chegava a ensaiá-la. Se um carinha (um outro) tá amarrado a uma cadeira, é um prisioneiro, e passa o filme inteiro rindo porque não consegue se segurar, não tem como não achar graça. O Herzog dá uma moeda quebrada para o coitado morder e dividir em duas partes. NÃO RI se tu conseguir! Ele parte a moeda com os dentes, aí fica se segurando, olhando pra cima, desesperado para rir, até que estoura. A Máquina morre de rir comentando a cena. EU não vou rir? É uma comédia, ora. Quem não ri de comédia não faz sentido. E toda a seqüência de destruição é sim hilariante, com o pessoalzinho em plena ação maluca.

Sem comentários.

Nem parece que o diretor vai me matar no final, antes de fugir. (detalhe para a moeda partida em duas no peito dele)

 

A plena ação dos anões causou o atropelamento de um deles, do mais ousado. O mesmo cara também conseguiu se incendiar, mas o fogo logo foi apagado pelo próprio Herzog, que se atirou em cima do anão. Ninguém se machucou e todos sobreviveram, levando o nosso Werner a cumprir uma promessa depois das filmagens: pular em um cacto. Pular foi fácil, difícil foi sair do cacto.

Também os anões começaram pequenos se encerra com uma cena sem precedentes, que só encontrará competidora quando Herzog filmar Stroszek: um dromedário ajoelhando e defecando para deleite do anão risadinha. Parece não ter fim. O coitado ri sua melhor risada, passa mal, começa a tossir, sente dores, perde a voz, até que leva a mão à nuca e o filme termina. Werner Herzog se perguntava por quanto tempo deveria filmar aquilo. O cinema às vezes não tem clemência. Ele queria cortar, mas não conseguia parar de ver o anão sem controle. Quando o pequeno chega no limite, Herzog corta. E, com sorte, a dor e o pesadelo terminam.

O diretor, louco, discute com uma árvore seca.

It’s over. Tá tudo bem agora.

 

VIVA HERZOG!

Projeto Herzog: Handicapped future: depois>

 


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