V FANTASPOA – Tokyo Gore Police e Marmorera

Publicado em FANTASPOA, cinema, filmes, vídeos às Julho 10, 2009 por felipe

Primeiros filmes da mostra competitiva que eu confiro nesse Fantaspoa. Na entrada a gente recebe um papelzinho para marcar ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo. O problema é que na saída ninguém sabe o que fazer com o papel. Quando nos entregam, não é dito onde colocar depois. Não há uma pessoa que se apresente e recolha os papéis. Na correria para mijar e partir para outro cinema em 10 ou 15 minutos, para pegar outra sessão, nem dá pra ficar procurando. E além disso, convenhamos, boa parte do público do festival, eu incluído, é gente sem traquejo social. Somos daqueles que chegam nos lugares espiando tudo, hesitantes, carecendo na hora de ter que pedir alguma informação, tirar alguma dúvida. Tentar dar um jeito de descobrir o que fazer com o papel de votação é tarefa árdua, eheh.

Tokyo Gore Police (2008). Polícia gore de Tóquio. Eu não sei que mensagem os japoneses querem transmitir com as demências infinitas que criam, se há alguma, mas o que sai de suas mentes é admirável. Aquelas idéias mirabolantes e estúpidas que a gente tem quando é piá ou mangolão, os japoneses colocam em prática nos filmes. Tipo uma pessoa com espadas no lugar das pernas e dos braços ou uma bazuca que atira punhos cerrados. TGP é um festival disso e de sangue jorrando e espirrando absurda, fantástica, cômica, incansavelmente. Uma palhaçada sem limites. A incapacidade (falta de interesse) que os colegas orientais tem de fazer algo sério nesses filmes é intrigante. BOBAGENS é tudo que há. É simplesmente sensacional. Para quem não conhece esse tipo de ARTE: não é nojento, não é intragavelmente violento, não é chocante (a não ser pelo ridículo); as únicas coisas extremas ali são a demência e o absurdo, por vezes, até desnecessários. O trailer é uma pequena, praticamente NULA amostra do que é Tokyo Gore Police:

Isso aí. A polícia privatizada contra mutantes que perdem uma parte do corpo e não se dão mal, por conta de um efeito regenerativo bizarro que faz crescer ARMAS no lugar da parte decepada. Até o bebezão apareceu no cinema. Gostaria de listar grandes momentos dessa obra, para dar a real do lance, mas fica pra outra hora, se ficar pra alguma. Fui às lágrimas na sessão, só sei disso.

E Marmorera (2007)? É um filme suíço com uma vibe meio terror japonês, daqueles de espíritos zombeteiros do passado cuja zombaria of choice é matar os outros. Meiaboquíssima pra caralho. Se eu tivesse suposto que seria assim, não compareceria. Menos mal que o lance japonês era só na vibe, não no estilo, na apresentação, porque disso já tive minha cota em dvd. No começo até tava achando legal, rolava uma referência a filmes de terror clássicos, aquela coisa de ter um personagem sinistrinho que recebe o casal na cidadezinha, os habitantes na “taberna” meio de cara e querendo expulsar os recém-chegados… Não fede nem cheira, no entanto. Ou não PEIDA nem cheira, como preferem alguns.

V FANTASPOA – Sobre meus lábios (2001)

Publicado em FANTASPOA, cinema, filmes às Julho 9, 2009 por felipe

Saí do Gasômetro, onde vi o Sonhos demoníacos, e saquei um mini-sucrilhos de chocolate do bolso, para ganhar uns nutrientes no caminho até a Casa de Cultura.

Sur mes lèvres trazia Vincent Cassel, já me servia. Desde O Ódio (La Haine, 1995) que sou fã dele. Diferente dos outros que vi, esse era um filme convencional, dos que o cara encontra na locadora. Mas boa película, gostei.

Um cara recém saído da prisão se envolve com uma mulher que um dia foi surda e é relegada a segundo plano no trampo. Traminha que envolve dívidas, grana, roubo e mini-reviravoltinhas. Uma violenciazinha aqui, outra ali, nada que ofenda quem não curte. Momentos comedinha. Quite entertaining.

V FANTASPOA – Sonhos demoníacos (1970? 1975?)

Publicado em FANTASPOA, cinema, filmes às Julho 9, 2009 por felipe

Dessa vez encarei dois filmes. Começo com Dream no evil, um filminho dos anos 70. Anos 70 é quase uma garantia de riso e diversão. E foi. Nada incrivelmente divertido, mas deu pra rir alto no cinema em alguns momentos.

Como em A noiva e a besta, temos uma mulher que tem sonhos e transtornos. Essa, Grace, sonha com o pai que nunca conheceu. O filme é muito ruim, mal contado, chega a parecer que faltam partes nele. Primeiro a personagem era criança, no orfanato. Do nada, está adulta e prestes a se casar com um médico. Sempre obcecada por encontrar o pai. Pra suprir esses cortes e passagens de tempo mal feitas, tem um narrador explicando.

Grace, a ruiva pernuda, fora adotada por um pastor, que morreu. O filho mais velho tomou conta da pregação, e Grace faz parte do show itinerante dele. O filho mais novo é o futuro médico com quem ela vai casar, e está sempre longe, já que ela viaja e ele fica estudando e trampando. Não importa. Ele consegue passar uns dias com ela e o irmão, conhece o xerife da cidade onde estão, um cara que diz ter sido curado pelos milagres do pastor pai, enquanto os médicos não fizeram nada.

E eu já nem lembro direito do filme. Sei que ela vai num hotel cheio de velhotes, onde estaria seu pai. Do nada, um cafetão com velhas putas aparece para alegrar os idosos, que vão pros quartos. Calha que o cafetão conhece o pai de Grace e diz que ele morreu no dia anterior. O cafetão tem um emprego formal, é agente funerário, e está com o corpo do pai morto em seu local de trabalho. A ruiva vai conferir e, quando o cara está resolvendo uns lances, ela vê o corpo se mover. Está vivo, não embalsame ele! Está morto, preciso embalsamar logo. O pai levanta e mata o cafetão.

Vai tudo bem, pai encontrado e tudo. Ele tinha até uma fazendinha e um cavalo. Southern, o cavalo se chamava, não esqueçam. Em dado momento, a virgem Grace resolve que vai dar para o cunhado pastor. O pai vê e mata o canalha, dá na filha. Ela fica atormentada, procura o pai e não encontra, tudo está destruído. Tudo volta ao normal. O pai aparece, eles fazem as pazes. Ele quer conhecer o médico que ela ama.

O narrador explica que “o fantasma do pai convenceu Grace de que aquilo tudo era real”, que ele próprio tinha matado o pastor, não ela. Ela desova o corpo num lixão. O xerife encontra o corpo do pastor, desfigurado. Nesse momento o xerife ostenta um bigode COMPLETAMENTE diferente do que tinha na primeira vez que apareceu, até meio azul o bicho está, além de muito mais frondoso. Tive que rir, não reconheci de cara o ator.

O xerife liga pro irmão médico, levanta informações, e acaba descobrindo que o hotel de velhos onde Grace encontrou o pai NÃO EXISTE. Vai até a casa onde eles estariam. É uma casa abandonada. Mas lá está “o pai”, que mata de foice o xerife, numa cena ridícula. A essa altura, o médico já está comendo a colega de quarto e de profissão e, atarefado no hospital, nem dá atenção à namorada, quando ela vai lá visitar.

Ela conta para o pai, que diz para ela convidar o cara pra chegar ali e eles conversarem. Grace toma um fora e enlouquece, partindo com machadadas para cima do carro do cara. O médico e a nova paquera dão um sossega-leão na veia da louca.

A Pinel e a polícia buscam Grace. Um psiquiatra desvenda e explica com clareza a psicose da mulher, que se espelhava na figura do pai que não teve na infância. O hotel, o cafetão, o agente funerário, a fazendinha, tudo era fruto da mente distorcida de Grace.

Cena final, congelada: Southern, o cavalo, com um pouco de bosta ao redor. O narrador diz que Southern é tipo a parte selvagem da mente de Grace, e que ele estará esperando por ela, ou algo assim.

Uma piada.

Não pretendo mais contar os filmes. Fica longo, chato e idiota. Não sei por que fiz isso com os dois primeiros. Talvez porque só classificá-los como BOBAGEM ou PORCARIA, sem mostrar evidências, poderia soar como “são uma merda e perdi meu tempo vendo”. Não são merdas, são legais.

O outro filme que vi hoje fica para outro post.

V FANTASPOA – A noiva e a Besta (1958)

Publicado em FANTASPOA, cinema, filmes, vídeos às Julho 7, 2009 por felipe

Minha primeira investida ao FANTASPOA foi soft: uma porcaria escrita pelo Ed Wood, The bride and the beast. Fui guerreiro, saí na chuva, fui até lá o Gasômetro. Caiu, levanta. Engole o choro.

Porcaria é o gênero da obra, não minha opinião sobre, porque me diverti com o filme. Trata-se de um casal recém casado que vai passar a lua-de-mel na África, caçando bichos, já que o marido é um fodão no esporte. A noite de núpcias, no entanto, ainda é na casa do cara. No porão da baia, o Sr. Fuller tem um gorila, que será transferido para um zoológico em breve. A porta do porão, não entendi por que, é uma passagem na parede, aberta por um botão. Enfim. Laura, a esposa, uma bela nariguda, ficou toda interessada ao saber que o marido tinha um macacão enjaulado no porão, e pediu para ver.

O cara é meio grosso, o gorila fica meio de cara quando ele fala e dá ordens, mas com a mulher foi diferente. Ela se aproxima e o bicho segura seu braço. O cara grita, manda soltar e é ignorado.  A mulher, meio hipnotizada enquanto é acariciada no rosto e nos cabelos pelo peludo, diz que ele a está machucando, aí ele a solta. Já rolou um clima.

Aí os dois (a mulher e o marido, claro) vão dormir, em camas separadas, sem consumar o casamento. Durante o sono, Laura se transtorna, sua, morde o lábio, acorda e levanta. O gorilão começa a arrebentar a jaula e se liberta. Sobe a escadinha, aperta o botão e sai do porão.  Laura está viajando na sala enquanto o gorila espia e depois se revela. A garota grita, mas logo já rola um clima, de novo. O marido chega, armado, esbraveja. O macaco remove com destreza (um único movimento) toda a roupa da mulher – que desmaia – e é fuzilado.

Laura começa com uns papos de vidas passadas, mas é ignorada pelo marido, que prefere chamar um médico pra examinar a cabeça dela, que ficar tendo pesadelo com gorila não é normal. O doutor CARL REINER testa uma hipnose e depois faz regressão. A obsessão de Laura por peles (pêlos) SÓ PODE ser algo de vidas passadas. Temos mais uma sessão de suor, mordida no lábio e gemidos. Descobrem, assim, que ela era uma gorila em outra vida. Os pesadelos deveriam sumir, e tudo ficaria bem, se o Fuller não insistisse em ir fazer safári com a mulher.

Da regressão em diante, o filme vira um festival de imagens de arquivo de bichos africanos e de safáris. Praticamente não há interação entre atores e animais. Pelo menos não há com os animais mostrados nas imagens. Seria como, num filme mais avant-garde, mostrar a foto de um leão com um rugido de trilha, e depois mostrar a reação da pessoa que estaria cara a cara com a fera.

Quando o casal chega na África é como se não existisse mais o problema de Laura com os gorilas, de fato. Aí o filme vira outra história. Fuller e sua equipe devem caçar dois tigres indianos que escaparam de um navio que tinha aportado na África. (Sim, na África, esse grande país. O avião deles passa pelas pirâmides do Egito e aí é África). O filme fica meio chato, até Laura ser perseguida por um dos tigres, bater a cabeça e voltar a ser a amante de gorilas que costumava ser.

Os gorilas a encontram e a levam para uma caverna. Fuller vai atrás, dá um soco na mulher, pra ver se ela desperta pra vida, dá mais umas porradas nos gorilas, DEITANDO UM COM DOIS GOLPES DE ESPINGARDA. Mas é inútil, é vencido.

Corta para a casa de Fuller. “E desde aquele dia, eu nunca mais a vi”, diz pro Dr. Reiner. Ela voltou a ser uma gorila. Não há sofrimento, não há sentimento, nada. Fim.

Foi divertido. E a mulher era bonita. Só fiquei meio bizarro vendo as imagens do pessoal capturando os animais, correndo de picape atrás deles e laçando-os. Não tinha nada de cru e violento (e nem eu fiquei com pena dos bichos), mas era real, ora. E os cretinos usando essas imagens que nem se encaixavam direito no filme, num filme que era uma bobagem! Ficou bem estranho, ahah.

Trailer do filme, comentado pelo John Landis:

V FANTASPOA

Publicado em FANTASPOA, cinema às Julho 3, 2009 por felipe

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Começou o quinto Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre.

Marquei uns 15 filmes que gostaria de assistir. Veremos o que os dias que virão me reservam. Pelo menos metade disso eu tenho que conseguir ver. Há pérolas japonesas contemporâneas cujos downloads eu fiquei adiando e que agora podem ser esquecidos; há velharias e bagaceirices; há documentários transtornantes.

Ainda higiene

Publicado em comportamento, cotidiano às Julho 1, 2009 por felipe

Não atacarei como ataquei a frescura do banho diário, nem me estenderei muito. O assunto é: escovar os dentes.

A Dora deu mais atenção ao assunto em seu blog, eu só pretendo dar um pouco do meu PLÁ. Leiam o post dela.

O fundamental é: teus dentes não vão ficar podres nem tu vai ficar com um bafo podre porque não escova os dentes depois de cada refeição – as famigeradas 3 vezes por dia. Essas coisas vão acontecer se tu NUNCA praticar a higiene dental, ou se não passar um fiozinho pra tirar aquela carninha ou aquele fiapo de laranja dos entredentes.

Também não é necessário ir ao dentista 2 vezes por ano, ou seja lá qual for A NORMA. Vai quando doer, quando um dente quebrar, quando precisar arrancar um siso.

Quando eu era piá, influenciável, obediente e inocente, a regra era escovar os dentes durante CINCO MINUTOS. Eu era bonzinho, mas não era imbecil, nunca demorei tanto pra fazer uma escovação. No entanto, durante uma aula de inglês respondi que escovar os dentes took me five minutes. Não fui motivo de piada, mas de suficiente espanto da professora. Foi o fim desse discurso incongruente com a prática.

Deixa pra lá. E a pasta de dente? TOTAL 12. Ok. Faz anos que aqui em casa usa-se a Colgate Total 12, embora não religiosamente. Quando ela surgiu, alegava proteger os dentes por 12 horas após a escovação. (Quero deixar evidente que a gente não comprava essa merda porque a propaganda dizia isso). Beleza, 12 horas. MÃS! But! Há poucos anos essa mesma Colgate 12 surge REVAMPED. E agora, moçada, agora, cito a Zorra, foda-se, chupa essa manga: a Colgate 12 NÃO SÓ continua protegendo por 12 horas, COMO TAMBÉM, casualmente (ou seria por magia químico-tecnológica das pesquisas e dos avanços nos laboratórios Colgate?) e convenientemente, protege de doze (fuck!) problemas bucais e dentais. Eu vou acreditar nisso, doutor? Eu vou acreditar que o 12 do nome agora é fantasticamente por causa de outras coisas? Deu que se encaixou no conceito, no nome! Vai te foder pra lá!

Linko

Publicado em internet, nariz grande, o blog às Junho 27, 2009 por felipe

Boto e tiro, tiro e boto. Às vezes sai até uma dança. Meu perfil no Twitter é bloqueado, quem não tem um não pode ler (e quem é filho-da-puta também não pode), mas tá ali do lado, de novo. Muita coisa que eu vejo na internet durante os dias não vale ou rende um post aqui, então muito se perde. Caso alguém se preocupe. Muitas vezes solto uns repúdios e desprezos, ofensas universais gratuitas das quais me arrependo segundos depois, porque odiar cansa e desagrada os outros.

Outras vezes, colo notícias estúpidas como essa: Homem é preso de minissaia assistindo a filme pornô em academia – http://bit.ly/MH6h9. Coisas que nem a pau vão me fazer abrir o WordPress para postar, de tão curtas e rápidas. Trailers de filmes que me interessam estão linkados lá, como esse: Until the light takes us – doc black metal: http://bit.ly/zIypj. Uma foto gigante da Sharapova, que nos permite perscrutar suas belas estrias atléticas: As estrias da Maria: http://bit.ly/5MeO9.

Atualizado lentamente, sem pretensão de ser O lugar das narigudas, BeautifulNose é um Tumblr feito para elas. Pelo teor de uma ou outra foto, o lance pode ser considerado NSFW, mas no geral é amigo.

E é só.

O nosso Michael

Publicado em atualidades, cotidiano, música, passado às Junho 26, 2009 por felipe

Minhas considerações sobre o passamento do Mike limitar-se-ão a reproduzir as palavras de Jorge Mautner sobre o King of Pop:

Até na cor da pele ele foi experimental.

Lá em 1988, tive um colega chamado Milton, que era de outro estado do Brasil. Ficou apenas um ano lá no colégio, mas foi suficiente para fazer uma festa de aniversário em sua casa. O tema da festinha era He-Man, e o enfeite central da mesa era um maldito Castelo de Greyskull, que cobicei muito. Eu só tinha os bonecos do He-Man e do Esqueleto. Um colega meu foi com seu irmão mais novo – não sei por quê – e deu de presente um batmóvel. Quando o Milton abriu o pacote e revelou o carrinho, o irmão mais novo desse meu outro colega decidiu que o carrinho era seu, chorou e quis pegar para si. Mas não deu em nada. Outro destaque da festa foi o compacto de Bad que o Milton tinha.

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Nesse mesmo ano, numa apresentaçãozinha de talentos da 3ª série, um outro colega meu expôs suas habilidades de dançarino imitando Michael. Fantástico.

O cenário do saber

Publicado em literatura com as tags às Junho 20, 2009 por felipe

Grifos meus.

Nossas verdades não valem mais que as de nossos antepassados. Depois de haver substituído seus mitos e seus símbolos por conceitos, nos julgamos mais “avançados”; mas esses mitos e esses símbolos não exprimem menos que nossos conceitos. A Árvore da Vida, a Serpente, Eva e o Paraíso significam tanto como: Vida, Conhecimento, Tentação, Inconsciente. As configurações concretas do mal e do bem na mitologia vão tão longe quanto o Mal e o Bem da ética. O Saber – no que tem de profundo – não muda nunca; só o seu cenário varia. O amor prossegue sem Vênus, a guerra sem Marte e, se os deuses já não intervêm nos acontecimentos, nem por isso tais acontecimentos são mais explicáveis nem menos desconcertantes: apenas, um aparato de fórmulas substitui a pompa das antigas lendas, sem que por isso as constantes da vida humana encontrem-se modificadas, pois a ciência não as apreende mais intimamente que os relatos poéticos.

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A auto-suficiência moderna não tem limites: nos julgamos mais esclarecidos e profundos do que todos os séculos passados, esquecendo que o ensinamento de um Buda pôs milhares de seres ante o problema do nada, problema que imaginamos haver descoberto porque mudamos seus termos e introduzimos um pouquinho de erudição. (…) Nós nos perdemos em textos e em terminologias. (…) No que se refere aos grandes problemas, não temos nenhuma vantagem sobre nossos antepassados ou sobre nossos predecessores mais recentes: sempre se soube tudo, ao menos no que concerne ao Essencial; a filosofia moderna não acrescenta nada à filosofia chinesa, hindu ou grega.

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Uma visão de mundo articulada em conceitos não é mais legítima do que outra surgida das lágrimas: argumentos e suspiros são modalidades igualmente convincentes e igualmente nulas.

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As criações do espírito – e os princípios que as presidem – seguem o destino de nossos humores, de nossa idade, de nossas febres e de nossas decepções. Questionamos tudo o que outrora amamos, e temos sempre razão e sempre estamos equivocados; pois tudo é válido e tudo carece de importância.

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Não há opinião, sistema ou crença que não seja justa e ao mesmo tempo absurda, conforme admiramos ou nos separamos dela.

Não se encontra mais rigor na filosofia que na poesia, nem no espírito que no coração; o rigor só existe na medida em que nos identificamos com o princípio ou com a coisa que abordamos ou sofremos: do exterior, tudo é arbitrário: razões e sentimentos. O que chamam de verdade é um erro insuficientemente vivido, ainda não esvaziado, mas que não demorará a envelhecer, um erro novo, e que espera comprometer sua novidade.

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A história é a ironia em marcha, a gargalhada do Espírito através dos homens e dos acontecimentos. Hoje triunfa tal crença; amanhã, vencida, será amaldiçoada e substituída: os que creram nela a seguirão em sua derrota. Depois, vem outra geração: a antiga crença entra de novo em vigor; seus movimentos demolidos são construídos de novo…, na espera de que pereçam outra vez.

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Não é mais razoável atribuir mais interesse às dicussões sobre a democracia e suas formas, do que às que tiveram lugar, na Idade Média, sobre o nominalismo e o realismo: cada época intoxica-se com um absoluto, menor e fastidioso, mas de aparência única; não se pode evitar ser contemporâneo de uma fé, de um sitema, de uma ideologia, ser, em suma, de seu tempo. Para emancipar-se, seria preciso ter a frieza de um deus do desprezo

Emil Cioran, no Breviário de decomposição.

Banho: o tabu

Publicado em comportamento às Junho 19, 2009 por felipe

Perguntadas, as pessoas afirmam que tomam banho diariamente. Quem admite que não toma banho todos os dias é tido como “ousado”, é aquele “que não tá nem aí para o que os outros pensam”, para simultaneamente ser taxado de porco.  É como admitir que peida. Todos peidam, sabem que peidam. “Eeeu? Nunca!”. Mas é proibido pela convenção social ADMITIR uma coisa dessas. E nem estou falando de trazer à tona o assunto  “flatulência” numa situação social, que aí seria BAIXARIA DO MAIS ALTO GRAU, algo só aceito em mesa de bar, com todo mundo bêbado. Falo simplesmente de admitir – para si, que seja – que solta um bafo intestinal de vez em quando, e que até sente o cheiro. Coisa triste, as amarras sociais.

Se você não caiu no lixo, não se cagou nem se mijou, não correu uma maratona nem jogou uma partida de futebol, não come alho em profusão todos os dias, não tem problemas glandulares que causem muito suor e cheiro ruim, provavelmente você não precise tomar banho hoje. Admita e aceite. Não é vergonha nem nojento ficar um dia sem tomar banho. Ou dois, ou quem sabe três dias, dependendo das circunstâncias.

Lavar o cabelo não é banho. Quem tem caspa ou cabelo oleoso teoricamente “não pode” deixar de lavar as melenas. Ponto pacífico, mas nada a ver com banho. Se você não consegue lavar a cabeça sem ficar nu debaixo de um chuveiro, o problema não é mais meu, amigo.

Não interessa aqui, tampouco, a ESCOLHA de tomar banho diariamente, nem o prazer que a pessoa que toma até mais de um banho por dia sente, menos ainda o fator relaxante do banho. Cada um na sua. Meu negócio é a suposta NECESSIDADE de tomar banho todos os dias e, especialmente, o NOJO gerado nas pessoas ao saberem que alguém não faz isso.

“Saberem”. Palavra-chave: SABER. O pecado original, pai da frescura. Para começo de conversa, e já poderia ser também o fim dela: olha na minha cara e diz que você é capaz de saber se a pessoa atravessando a rua – aquela pessoa comum, sem fedor, sem uma craca pelo corpo – tomou banho ou não, só de olhar. É claro que você não é capaz, não minta. Você não sabe se alguém tomou banho ou não até que a pessoa diga. Ninguém em condições normais fede por passar um dia sem banho. É ao SABER que a pessoa não tomou banho, pelo menos até aquele momento (vai que ela está indo para casa tomar um; terá seu banho diário em breve), que você vai acabar enxergando ou sentindo alguma coisa que “denunciaria”. Ou nem vai sacar nada, vai só julgar: suja, porca. Ou absorverá um factual e singelo porém acusatório “ela não tomou banho”. Mesmo a pessoa não estando suja.

Uma hora vão inventar, tirar de algum “estudo científico”, que O CORRETO é tomar banho 2 vezes ao dia: uma vez ao acordar e outra à noite, depois de um dia cheio. Mas é óbvio! Imagina parte de uma manhã e uma tarde inteirinha – talvez, ainda, um pouco de noite! -  sem um banho. Imagina o fedor e a crosta de sujeira do indivíduo! Precisa de um banho antes de ir deitar, claro. E no dia seguinte acorda já FEDENDO (A SONO), aquele cheirão insuportável de cama que não vai sumir depois de uma arejada na rua. Vai pro trabalho assim, irmão?

Pouco me importam os benefícios “científicos” da higiene do corpo, ou os “prejuízos” da falta de banho. Saúde se faz na alimentação, e nem precisa lavar as mãos antes de comer, sério; nos exercícios físicos, na meditação, no bom convívio com os que nos cercam, no trabalho que dá prazer. E mesmo assim, nada é garantido.

Aí o mais engraçadinho já vem ignorar o texto e me chamar de porco. “Rá! Escreveu um texto para legitimar a própria porquice, ein! Malandrão!”. Hilariante, meu bom. Veja só, eu sou feio e barbudo, desalinhado, mal vestido e manco nas habilidades sociais; gosto de pensar que sou um cara educado, para contar algo a meu favor. Por mais banhos que eu tomasse, por NUNCA QUE EU TIVESE ESCRITO esse texto, a pessoa que me vê na rua tem muita probabilidade de não me tomar por alguém “limpo”. Numa fila de gente, tipo identificação de suspeitos na delegacia, entre indivíduos sem banho e com banho, não me sentiria injustiçado se, mesmo de banho recém tomado, fosse apontado como um dos que não viu o chuveiro naquele dia. Porque as pessoas são como são, e se você é agradável, não é por causa dos banhos que você toma todos os dias, minha filha, e assim por diante.

E se o cara vai passar o fim-de-semana em casa, vendo tevê ou sentado na frente do computador, por que diabos vai tomar banho todo dia? Banho o cara toma quando a situação está em estágio avançado, de modo que pode incomodar os outros ou causar problemas para si, como no ambiente de trabalho ou algo do tipo. Banho, como tantas outras coisas, é para os outros, não para a gente.